quinta-feira, 10 de junho de 2010

A conexão

A conexão

Desde os anos 60, com a publicação da série de livros Hermes, o trabalho de Michel Serres tem se afirmado como uma das mais instigantes reflexões sobre a ciência de nosso tempo, sobre as relações entre a filosofia contemporânea e a sua história e sobre a história das ciências e as ciências atuais na conjunção de um pensamento ao mesmo tempo epistemológico, ético e estético. Sua obra constitui um desafio a certos dualismos básicos na cultura moderna, que separa as ciências humanas, a tradição dos estudos clássicos e as chamadas ciências duras.

Serres veio a São Paulo para abrir o 1º Congresso Internacional do Desenvolvimento Humano na Universidade São Marcos (16 a 18 de setembro) e para o lançamento, no Brasil, de seu livro de entrevistas Luzes, pela Unimarco Editora. Amanhã, participa do programa Roda Viva, na TV Cultura. Nesta entrevista, o filósofo francês fala sobre as perspectivas da relação entre as humanidades e as ciências duras.

Folha – As questões da comunicação, da educação e do desenvolvimento cultural formam o tema geral da conferência que você veio abrir e o ocuparam ao longo de suas obras. Como refletir sobre as novas possibilidades e os novos desafios que o desenvolvimento tecnológico apresenta neste final de século para as formas da educação e da comunicação e que impacto tem e terão na evolução (ou involução) das formas culturais?

Serres – Primeiramente, como cada mudança de suporte de informação tem trazido na história transformações consideráveis nas maneiras de vida – por exemplo, a invenção da escritura ou dos processos de impressão –, devemos esperar mudanças igualmente radicais no futuro. Em segundo lugar, entre estas mudanças, as da educação e dos modos de pensar serão importantes, com outras funções da memória, da imaginação, da própria razão. E, finalmente, essa reflexão deve responder de maneira otimista às questões do futuro: realmente, eu penso que o ensino a distância, mais barato que o tradicional, poderá dar aos mais desfavorecidos acesso ao conhecimento.

Folha – O sr. refletiu recentemente sobre a passagem de uma sociedade de informação para uma sociedade de formação contínua, uma sociedade pedagógica. Segundo o Iluminismo, o conhecimento libertaria a humanidade. Aparentemente, a sociedade que estamos construindo ao fim do milênio nega, na prática – não necessariamente na sua ideologia –, a equação de conhecimento e liberdade. A sociedade pedagógica correria o risco de confundir fins e meios, de perder de vista as metas de autonomia pessoal e liberdade social que são, ou deveriam ser, a finalidade do processo educacional?

Serres – Essa questão é provavelmente a mais importante, pois ela se refere ao nosso destino, hoje. Realmente, o conhecimento e o ensino serão decisivos para as pessoas e os grupos no mundo de amanhã. Como eu sempre me considerei herdeiro do Iluminismo, espero que o conhecimento seja ainda libertador. Caso contrário, podemos sempre tentar a ignorância! É claro que as pressões sociais que pesam sobre o conhecimento parecem fazer dele um espaço ordinário onde prevalece a lei do mais forte. Mas não é certo, primeiramente, que o conhecimento individual dependa completamente das condições institucionais. A história das ciências que eu pratico há muito tempo, mostra suficientemente que a invenção é com freqüência o produto de indivíduos solitários e, para dar um exemplo, uma porcentagem considerável de Prêmios Nobel obtém a honraria graças a invenções que a coletividade científica não quis financiar, julgando-as sem valor. A coletividade e as instituições são tão pesadas que elas encorajam tudo, exceto a inteligência.

O dogma de acordo com o qual as ciências avançam pelo debate e pelas querelas me parece freqüentemente falso, pois essas discussões desperdiçam mais tempo do que ganham e eu não conheço um caso onde a invenção se originou realmente dessa disputa. Por outro lado, o vencedor, nesse tipo de batalha, raramente é o mais inventivo ou mais produtivo, mas o gângster melhor dotado em política; não o mais forte na disciplina, mas o mais forte na polêmica. A vida acadêmica de hoje mostra claramente que os que dirigem nunca não são os que trabalham, ainda menos aqueles que inventam. Também aí, o mais forte é raramente o mais inventivo. De resto, as instituições poluem o conhecimento muito mais do que o condicionam. É então necessário, eu acredito, relativizar a sociologia das ciências, o neodarwinismo americano do qual você fala, como também o modelo dialético continental. Em resumo, o coletivo e a batalha eclipsam muito o conhecimento e o favorecem muito menos do que se crê. A luta de todos contra todos no conhecimento favorece a luta e não o conhecimento. Inversamente, a cultura permite a um homem culto não esmagar ninguém sob o peso de sua cultura. O saber permite aquele que sabe evitar fazer a guerra em nome do saber; caso contrário, não se trata de uma cultura ou do saber, mas somente de armas letais.

Outro exemplo: se você tem e me dá US$ 20, no final, eu tenho US$ 20 e você não tem mais nada. Se você sabe um teorema e me ensina, ao final eu tenho o teorema, mas você o conserva também. Então, o conhecimento não obedece às leis da troca mercantil, ele tem mesmo a virtude de fazer exatamente o oposto: em vez de um jogo de resultado nulo, ele suscita a multiplicação de seu valor. Desse modo, nós não podemos aplicar aqui lógicas em vigor na economia ou na seleção natural: o darwinismo social é uma ideologia de cunho fascista; o darwinismo intelectual seria algo melhor?

Existe então ainda lugar para o trabalho solitário do indivíduo, para uma cultura que faça da vida uma vida livre, para um compartilhar do conhecimento que o multiplique gratuitamente e não aumente a miséria. No momento, eu só vejo a via da formação e da educação para a libertação dos homens. Eu permaneço otimista em relação às novas tecnologias que, abrindo, no momento, um espaço sem direito legal estabelecido, oferecem a formação aliviando ao mesmo tempo as pressões financeiras e sociais. O custo de se ramificar na Internet é infinitamente menor que o de um campus, com laboratórios, bibliotecas e salas de aula. Mas, nessa questão que diz respeito ao futuro, a discussão permanece aberta.

Folha – Conectar as humanidades e as chamadas ciências duras tem sido um dos seus objetivos principais ao longo de toda uma vida de reflexão. Recentemente, o chamado caso Sokal mostrou que, pelo menos no que diz respeito à opinião pública, ou, mais corretamente, a um setor largo ou proeminente dos meios de comunicação de massas no EUA e Europa, o fosso entre as humanidades e as ciências é tão grande hoje como sempre foi: um obscuro professor de física de Nova York que ganhou celebridade imediata exibindo sua ignorância filosófica publicamente e atacando com ciúmes territoriais filósofos, principalmente franceses, que ousaram engajar, imaginar, representar ou interrogar as ciências em seus trabalhos filosóficos. No ambiente de meios de comunicação de massas de hoje, a reflexão e o pensamento especulativo tornam-se espetáculo. Em nome da verdade como espetáculo a filosofia é espetacularmente condenada, e os domínios do conhecimento salvaguardados. Com que resultado?

Serres – Eu não conheço bem o caso Sokal, mas acredito sinceramente que terá produzido um benefício verdadeiro que consiste em recomendar prudência a todos os escritores ou jornalistas quando eles falam da ciência. Muitos filósofos, sociólogos ou outros especialistas falam de ciências, realmente, sem respeitar as regras elementares de treinamento e prática que elas implicam. De vez em quando, é necessário dizer isso a eles, até mesmo de maneira dura e, nesse ponto, Sokal não foi o primeiro; é necessário então primeiramente agradecê-lo por isso. Uma mudança de paradigma, como transformação da visão do mundo, vem freqüentemente de um pensamento filosófico. E as humanidades contêm um imenso tesouro de reflexão cuja ciência utiliza, às vezes muito tempo depois. Fazer a ponte entre os dois acelerará ainda a invenção. Finalmente, se a filosofia, como você diz, é condenada, eu ouso dizer que ela já está habituada a tanto, pois, na história, as instituições oficiais, guardiãs da verdade, sempre condenaram, de um modo ou de outro, a filosofia. Ela está sempre em vias de morrer para fazer nascer a ciência. Isso não é grave: precisamos nos consolar porque é o risco da profissão, e não há profissão sem risco.

Fonte


LIMA, Marcelo Guimarães. A conexão. Folha de São Paulo. São Paulo, 19 set. 1999. Mais, p. 5-11.

Sensopercepção

Os texto abaixo, sobre Sensopercepção, é do professor Eunofre Marques, retirado de suas brilhantes páginas na internet. Veja um trecho:

"... Essa atividade nós chamamos de percepção objetiva, isto é, a percepção do mundo objetivo, incluindo o corpo. Esta percepção é sempre e unicamente intermediada pela sensorialidade, que a possibilita porém também a limita. Não se trata apenas da apreensão de informações sensorialmente determinadas, que é o que ocorre na neuropercepção. Ela é uma atividade intrinsecamente psíquica, que se vale das informações fornecidas pela neuropercepção mas que vai além, que integra as imagens e as representa na consciência. A esta percepção do mundo nós damos o nome de sensopercepção. Sensopercepção é, pois, a atividade de incorporar o mundo objetivo ao mundo interno, é trazer o mundo físico para o mundo mental, é colocar-nos em contato direto, intrapsíquico, com o que pudemos apreender do mundo que nos cerca, ao qual não temos acesso direto.

Com a sensopercepção podemos construir em nosso mundo próprio todo um modelo nosso do universo, sem as limitações físicas deste, mas submetido a essas limitações, isto é, podemos analisar, sintetizar, desmembrar, unificar, como se estivéssemos manipulando o mundo objetivo, de um modo que, diretamente nele, não seria possível. A sensopercepção nos permite, assim, uma nova conquista do mundo, além das suas próprias possibilidades. Se ela não fosse razoavelmente fiel ao mundo externo, isto é, se as suas referências básicas não viessem da realidade objetiva, o nosso mundo interno seria uma imaginação delirante e irreal. Exatamente por se tratar de uma atividade muito confiável, apesar das suas limitações, podemos nos valer dela para lidar com a realidade fora da realidade e, daí, descobrirmos como tornar real o resultado do nosso trabalho.

Fazemos questão de ressaltar essa propriedade exclusivamente intrapsíquica da sensopercepção e as possibilidades que ela nos apresenta justamente para distingui-la de uma simples reprodução ou representação da realidade ou uma mera atividade sensorial. Na percepção do mundo temos, na verdade, três níveis: o nível sensorial, onde obtemos informações possibilitadas pelas limitações da cada sensorialidade, o nível neuropsíquico, que nos fornece informações sem conteúdo, e o nível sensoperceptivo, que nos abre todas as potencialidades que o conhecimento da realidade pode oferecer. A primeira é um campo puro da neurologia, a segunda da neuropsicologia e a terceira é restrita à psicologia (médica) e à psicopatologia. O fato de representarem campos profissionais completamente distintos é também um dado que revela o quanto tais atividades se diferenciam entre si.
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Sobre a influência do estado emocional na intensidade das percepções, Eunofre Marques é muito didático. Veja um trecho de sua página:

"... O grau de interesse pelo objeto que esteja no foco da consciência pode aumentar ou reduzir a acuidade perceptual para ele. Isto também vale para os objetos a ele relacionados e a todo o ambiente possível no campo perceptual. Se eu estiver apenas interessado num único objeto, no livro que estou lendo, por exemplo, eu posso "apagar" todos os registros perceptuais de todos os sentidos, só permanecendo o foco visual de meu interesse. Se estou num ambiente novo, onde tudo me interessa, o meu campo perceptual se amplia até os limites possíveis da sensorialidade, com um grau de acuidade muitas vezes semelhante àquele que eu costumo ter apenas no foco da consciência. Aqui se trata, na verdade, de uma alteração intencional do grau de lucidez da consciência e da contração ou expansão dos seus foco e campo. Isto quer dizer que o interesse do indivíduo pelo objeto altera a sua acuidade perceptiva via consciência.

Existem estados normais que exacerbam a acuidade perceptiva. Assim, se estou à noite caminhando numa rua estranha de um bairro suspeito, o medo pode tornar a minha acuidade perceptiva muito maior do que aquela que costumo apresentar em condições normais. Tal fenômeno não vem acompanhado de hiperlucidez, isto é, a reação de alerta produzida pelo medo não altera a sensopercepção pela via da consciência, mas de modo direto, primário. Outra condição que pode exacerbar a acuidade perceptiva é o êxtase, um estado afetivo especial que altera as condições da consciência, gerando um estado de hiperlucidez. Este fenômeno é completamente diferente do que ocorre no medo e trataremos dele mais tarde. Se estou muito cansado, a fadiga pode reduzir drasticamente a minha acuidade perceptiva. A fadiga não costuma vir acompanhada de variação da lucidez, indicando que a influência da fadiga na acuidade é direta e primária. A sonolência também reduz a acuidade perceptual. Esta, diferente da anterior, influi na sensopercepção através da variação da lucidez, pois a sonolência é um estado de hipolucidez, isto é, depende do estado da consciência. Existem muitas condições normais que produzem variações da acuidade perceptual para mais ou para menos. Não se tratam de distúrbios da sensopercepção, mas apenas variações das suas condições habituais, sendo, portanto, fenômenos absolutamente normais. As variações no sentido de aumento da acuidade sensoperceptiva são chamadas de hiperestesias e para menos de hipoestesias. Alguns autores guardam esses termos apenas para as variações quantitativas patológicas, outros as usam indiferentemente também para as variações normais.
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Em relação ao desenvolvimento da capacidade cognitiva e simbólica do ser humano,Renato da Silva Queiroz, professor do departamento de antropologia da USP, comenta um livro chamado A Pré-História da Mente, de Steven Mithen, onde destaca o tópico “As origens da arte, da religião e da ciência”

“A mente dos humanos modernos produz conhecimentos e os redireciona para propósitos diversos daqueles aos quais se aplicavam originalmente. Tal capacidade mental requer um cérebro poderoso e multifacetado, organizado de tal modo que os processos cognitivos em seu interior, a despeito de especializados, possam fluir e recombinar-se sem restrições. Disso decorrem a flexibilidade e a criatividade do comportamento humano. O surgimento desse tipo de mente, única entre os seres viventes, é produto de um longo trajeto evolucionário, cuja pormenorizada reconstituição encontra-se neste instigante livro de Steven Mithen, arqueólogo inglês que, para tanto, recorre a saberes da biologia, antropologia e psicologia, entre outras disciplinas científicas.

Todavia é o método arqueológico que o conduz pelas sendas das demonstrações. "Se quiserem conhecer a mente, não procurem apenas psicólogos e filósofos: certifiquem-se de também procurar um arqueólogo", adverte Mithen, enfatizando que a mente humana resulta tanto da nossa história evolutiva quanto dos contextos em que os indivíduos se desenvolvem. A mente dos humanos modernos é fruto do processo de expansão cerebral, conhecido como "encefalização", e do desenvolvimento de inteligências especializadas, cujos conhecimentos, antes nelas aprisionados, se integraram graças ao mecanismo gerenciador exercido pela consciência.

Essas inteligências múltiplas -e o autor propõe a existência de pelo menos quatro delas: social, naturalista, técnica e lingüística-, que se foram desenvolvendo de forma mais ou menos estanque ao longo do processo evolucionário, em resposta a numerosas pressões seletivas, se integraram, finalmente, na transição do Paleolítico Superior ao Médio. Pode-se identificar o período em que se deu tal integração, caracterizada por uma enorme fluidez cognitiva, observando-se as primeiras manifestações de percepção estética traduzidas em obras de arte (figuras esculpidas e pinturas rupestres) e a emergência de representações religiosas.

Escassas são as peças que se oferecem à reconstituição da pré-história da mente humana. Até o aparecimento das primeiras modalidades de escrita, surgidas há uns 5.000 anos, os vestígios que nos foram legados pelos nossos ancestrais nos últimos 2,5 milhões de anos não vão muito além de utensílios de pedra, restos de alimentos, figuras fixadas em pequenas esculturas e pinturas rupestres. Entretanto esse exíguo material, submetido ao rigoroso exame do autor e por ele confrontado com o comportamento de chimpanzés e grupos de caçadores-coletores modernos, conferiu suporte às suas convincentes interpretações. Um dos fundamentos da reconstituição empreendida por Mithen é o princípio da recapitulação, segundo o qual a ontogenia recapitula a filogenia, postulando o autor que se podem vislumbrar nas etapas de desenvolvimento mental da criança as fases da evolução cognitiva dos nossos ancestrais. Nessa medida, tem-se, num primeiro período evolucionário, uma inteligência geral, indiferenciada, incapaz de sustentar a elaboração de padrões complexos de comportamento, inteligência suficiente apenas para a aquisição de condutas relativamente simples, sujeitas a erros freqüentes e dependentes de um ritmo lento de aprendizado. Depois, despontam as inteligências especializadas, cada uma delas tomando conta de um domínio comportamental específico, com o que se amplia a capacidade das operações cognitivas.

Ocorre, porém, que nessa etapa intermediária os conhecimentos pertinentes a cada um dos domínios ainda estão contidos em seus módulos específicos (a imagem é a das lâminas de um canivete suíço), não se verificando, pois, significativo fluxo de informações entre eles. Finalmente, adquire-se a fluidez cognitiva, donde a dramática ampliação das capacidades mentais e a plena configuração da mente do homem moderno -criativa, flexível e imaginativa.

SELEÇÃO NATURAL
O mais importante arquiteto da mente, a seleção natural, processo lento e gradual, desprovido de direção ou de objetivos predeterminados, terminou por favorecer a integração das inteligências múltiplas, dando margem à riqueza dos processos mentais, que se traduzem em metáforas e analogias, e à nossa inesgotável imaginação. Dessa perspectiva, a capacidade simbólica e os estados mentais que se expressam por meio da arte, da religião e da ciência, criações exclusivas do homem moderno, já germinavam nas mentes de nossos ancestrais. Steven Mithen rastreou o percurso da construção dessa mente dotada de fluidez cognitiva, sem a qual os humanos seriam incapazes de construir e representar o ambiente culturalmente complexo que fizeram para si mesmos.

Em seus comportamentos se entranham dimensões práticas e simbólicas, neles interligando-se profundamente a manipulação e a transformação de objetos físicos, coordenadas pela inteligência técnica, a interação com o mundo natural, orientada pela inteligência naturalista, a habilidade de reconhecer indivíduos e inferir os seus estados mentais, favorecida pela inteligência social, e a aquisição e os múltiplos usos da linguagem, possibilitados pela inteligência linguística. O autor data as primeiras formas de expressão artística em aproximadamente 40 mil anos, situando-as no continente europeu e na "explosão criativa" do Paleolítico Superior.

Contudo novas descobertas parecem localizá-las em terras africanas, há uns 80 mil anos. Mesmo estando corretas essas derradeiras estimativas, vê-se que a emergência do homem moderno é bastante recente. Logo, prematura pareceria qualquer conclusão quanto à capacidade dessa mente, tão complexa e cognitivamente tão fluida, de prover a nossa espécie não só das artes de subsistência como também -e sobretudo- de uma ciência que nos proteja da extinção. "

Relação educação e desenvolvimento

Relação educação e desenvolvimento

Seja como for, a visão do desenvolvimento humano parte de alguns pressupostos teóricos e metodológicos bastante pertinentes, tais como...

a) É preciso distinguir acuradamente crescimento e desenvolvimento; enquanto o primeiro aponta para uma evolução tipicamente econômica, o segundo se volta para um olhar interdisciplinar, abrangendo todas as dimensões consideradas relevantes da sociedade.

b) Para sinalizar mais concretamente essa distinção, a ONU optou pela definição de desenvolvimento como oportunidade, traduzindo, desde logo, sua face política como a mais estratégica, em vez das infra-estruturais, que, obviamente, dentro do horizonte estratégico, continuam essenciais, mas de teor instrumental.

c) Esse enfoque valoriza naturalmente a educação como o fator mais próximo da gestação de oportunidade, seja no sentido de fazer oportunidade, seja no sentido ainda mais próprio de fazer-se oportunidade; ganha realce maior, imediatamente, a questão da cidadania.

d) O adjetivo humano dispensa todos os outros classicamente usados, a começar pelo econômico, e mesmo o sustentável; assim, uma visão tipicamente interdisciplinar e complexa se instalou, indicando que o crescimento econômico não é apenas parte integrante, mas, sobretudo, é parte tipicamente instrumental: não vai, nisso, qualquer intento de secundarizar o econômico, mas de colocá-lo no seu devido lugar.

e) Segue, daí, a proposta do ranking dos países em termos de desenvolvimento humano, tomando como indicadores básicos, em primeiro lugar, educação, porque é o fator mais próximo do conceito de oportunidade; em segundo lugar, expectativa de vida, porque oportunidade se correlaciona fortemente com quantidade e com a qualidade de vida; e, por fim, poder de compra, porque a satisfação das necessidades materiais é sempre componente central do desenvolvimento.

f) Do ponto de vista estratégico, a educação é o fator mais decisivo, mas nunca de modo setorial e isolado: assim, esta idéia implica que os fatores do desenvolvimento se hierarquizam e se concertam ao mesmo tempo.

g) Possivelmente, o resultado mais pertinente dessa postura categorial é a mensagem de que a pobreza política é mais comprometedora para as oportunidades de desenvolvimento do que a pobreza material; problema mais constrangedor é a ignorância, que inviabiliza a gestação de sujeitos capazes de história própria ao obstruir a cidadania individual e coletiva; mudanças provêm menos de um pobre que tem fome – o qual acaba facilmente se contentando com qualquer sorte de assistencialismo –, do que de um pobre que sabe pensar.

Fonte

DEMO, Pedro. Da relação educação e desenvolvimento. In:______. Educação e desenvolvimento. São Paulo: Papirus, 1999. p. 14-25.

Sensopercepção

Sensopercepção

Hoje não mais se admite, como acontecia no passado, que o nosso universo perceptivo resulte do encontro entre um cérebro simples e as propriedades físicas de um estímulo. Na verdade, as percepções diferem, qualitativamente, das características físicas do estímulo, porque o cérebro extrai dele informações e as interpretam em função de experiências anteriores com as quais ela se associe. Nós experimentamos ondas eletromagnéticas, não como ondas, mas como cores e as identificamos pautados em experiências anteriores.

Experimentamos vibrações, mas como sons, substâncias químicas dissolvidas em ar ou água como cheiros e gostos específicos. Cores, tons, cheiros e gostos são construções da mente, à partir de experiências sensoriais. Eles não existem, como tais, fora do nosso cérebro.

Assim, já se pode responder a uma das questões tradicionais dos filósofos: Há som, quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir? Não, a queda da árvore gera vibrações e o som só ocorre se elas forem percebidas por um ser vivo capaz de identificar tais vibrações como estímulos sonoros.

A peculiaridade da resposta de cada órgão sensorial é devida à área neurológica onde terminam as vias aferentes provindas do receptor periférico. O sistema sensorial começa a operar quando um estímulo, via de regra, ambiental, é detectado por um neurônio sensitivo, o primeiro receptor sensorial. Este converte a expressão física do estímulo (luz, som, calor, pressão, paladar, cheiro...) em potenciais de ação, que o transformam em sinais elétricos. Daí ele é conduzido a uma área de processamento primário, onde se elaboram as características iniciais da informação: cor, forma, distância, tonalidade, etc., de acordo com a natureza do estímulo original.

Em seguida, a informação, já elaborada, é transmitida aos centros de processamento secundário do tálamo. Se a informação é originada por estímulos olfativos, ela vai ser processada no bulbo olfatório e depois segue para a parte média do lobo temporal. Nos centros talâmicos, à informação se incorpora à outras, de origem límbica ou cortical, relacionadas com experiências passadas similares.

Finalmente, já bastante modificada, esta informação é enviada ao seu centro cortical específico. A esse nível, a natureza e a importância do que foi detectado são determinados por um processo de identificação consciente a que denominamos percepção.

O que percebemos?

Na realidade, perguntas distintas podem ser feitas sobre essa questão: o que percebemos e o que sentimos. Para percebermos o mundo ao redor teremos de nos valer dos nossos sistemas sensoriais. Cada sistema é nomeado de acordo com o tipo da informação: visão, audição, tato, paladar, olfato e gravidade. Esta última ligada à sensação de equilíbrio. Portanto, vamos falar antes da Sensação e depois da Percepção.

Sensação

Em seu significado preciso, a sensação é um fenômeno psíquico elementar que resulta da ação de estímulos externos sobre os nossos órgãos dos sentidos. Entre o estado psicológico atual e o estímulo exterior há um fator causal e determinante ao qual designamos sensação, portanto, deve haver uma concordância entre as sensações e os estímulos que as produzem.

As sensações podem ser classificadas em três grupos principais: externas, internas e especiais. As sensações externas são aquelas que refletem as propriedades e aspectos de tudo, humanamente perceptível, que se encontra no mundo exterior. Para tal nos valemos dos órgãos dos sentidos; sensações visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis. A resposta específica (sensação) de cada órgão dos sentidos aos estímulos que agem sobre eles é conseqüência da adaptação desse órgão a esse tipo determinado de estímulo.

As sensações internas refletem os movimentos de partes isoladas do nosso corpo e o estado dos órgãos internos. Ao conjunto dessas sensações se denomina sensibilidade geral. Discretos receptores sensitivos, captam estímulos proprioceptivos, que indicam a posição do corpo e de suas partes, enquanto outros, que recebem estímulos denominados cinestésicos, são responsáveis pela monitorização dos movimentos, auxiliando-nos a realizar outras atividades cinéticas, segura e coordenadamente. Os receptores dessas sensações se acham localizados nos músculos, nos tendões e na superfície dos diferentes órgãos internos. Portanto, esse grupo engloba três tipos de sensações: motoras, de equilíbrio e orgânicas.

As sensações motoras nos orientam sobre os movimentos dos membros e do nosso corpo. As sensações de equilíbrio provêm da parte interna do ouvido e indicam a posição do corpo e da cabeça. As sensações orgânicas são, de fato, as proprioceptivas, e se originam nos órgãos internos: estômago, intestinos, pulmões etc. Seus receptores estão localizados na face interna desses órgãos. Outros sensores sutis são capazes de captar informações mais refinadas, tais como temperatura, excitação sexual e volume sanguíneo.

A sensação especial se manifesta sob a forma de sensibilidade para a fome, sede, fadiga, de mal-estar ou bem-estar. Essas sensações internas vagas e indiferenciadas que nos dão a sensibilidade de bem-estar, mal-estar, etc., têm o nome de cenestesia. No processo do conhecimento e do auto-conhecimento objetivo as sensações ocupam o primeiro grau. São as sensações que nos relacionam com nosso próprio organismo, com o mundo exterior e com as coisas que nos rodeiam. O conhecimento do mundo exterior resulta das sensações dele captadas e quanto mais desenvolvidos forem os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso do animal, mais delicadas e mais variadas serão as suas sensações.

[...]

Percepção

Ainda que dois seres humanos dividam a mesma arquitetura biológica e genética, talvez aquilo que um deles percebe como uma cor ou cheiro, não seja exatamente igual à cor e cheiro que o outro percebe. Nós damos o mesmo nome a esta percepção mas, com certeza, não sabemos se elas relacionam à realidade do mundo externo exatamente da mesma maneira que a realidade percebida por nosso semelhante. Talvez nunca saberemos.

O termo percepção designa o ato pelo qual tomamos conhecimento de um objeto do meio exterior. A maior parte de nossas percepções conscientes provém do meio externo, pois as sensações dos órgãos internos não são conscientes na maioria das vezes e desempenham papel limitado na elaboração do conhecimento do mundo. Trata-se, a percepção, da apreensão de uma situação objetiva baseada em sensações, acompanhada de representações e freqüentemente de juízos.

A percepção, ao contrário da sensação, não é uma fotografia dos objetos do mundo determinada exclusivamente pelas qualidades objetivas do estímulo. Na percepção, acrescentamos aos estímulos elementos da memória, do raciocínio, do juízo e do afeto, portanto, acoplamos às qualidades objetivas dos sentidos outros elementos subjetivos e próprios de cada indivíduo.

[...]

Fonte

BALLONE, G. J. Sensopercepção. In:______. Percepção e realidade - cognição. Disponível em: Acesso http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=47&art=257>.

em: 13 fev. 2006.

Como Uma Onda no Mar

Como Uma Onda no Mar

Nada do que foi será

de novo do jeito que já foi um dia

tudo passa

tudo sempre passará.

A vida vem em ondas como um mar

num indo e vindo infinito.

Tudo que se vê

não é igual ao que a gente viu a um segundo.

Tudo muda o tempo todo no mundo.

Não adianta fugir,

nem mentir pra si mesmo.

Agora há tanta vida lá fora

e aqui dentro sempre

como uma onda no mar,

como uma onda no mar,

como uma onda no mar.

Fonte

MOTA, Nelson. Como uma onda no mar. [S.l.: s.n.], [19--].

A padroeira das donas de casa

A padroeira das donas de casa

Clarence Birdseye era um rapaz esperto do Brooklyn, em Nova Iorque, que gostava de duas coisas aparentemente inconciliáveis: viver ao ar livre e ganhar dinheiro.

Conseguiu o que queria ao trocar a faculdade, que não terminou, por uma vaga de biólogo de campo, emprego de nível médio oferecido pelo Governo americano num posto de observação avançado, nas proximidades do Ártico. Sem ter muito o que fazer além de observar, espantou-se com algo corriqueiro naquela região gelada: a técnica esquimó de conservar alimentos.

Reparou que o peixe que traziam, e não consumiam na hora, congelava e endurecia rapidamente, bastando ficar exposto à baixíssima temperatura local e à ação dos ventos. Mais intrigante ainda é que, mesmo após semanas ou meses, ao ser descongelado e servido, o peixe não perdia nem o sabor nem os valores nutritivos.

Birdseye havia passado pouco tempo na escola de biologia, mas tempo o suficiente para entender que a estrutura celular do pescado fora preservada.

Farejando excelentes negócios, ele pegou o navio de volta para sua Nova York natal e desembarcou no mercado Fulton, em Manhattan, em setembro de 1922, para vender seu peixe cru. Dois anos depois desenvolveu o processo que lançou as bases da nova indústria: ainda usando barras de gelo, passou a acondicionar o peixe e outros alimentos pré-cozidos – legumes e hortaliças, basicamente – em caixas de papelão, sob pressão.

Para realizar a segunda parte do sonho – faturar bastante – Birdseye arranjou meia dúzia de sócios capitalistas e montou a General Seafood Corporation. A novidade que mudaria a rotina das donas-de-casa e dos homens solteiros ou descasados no decorrer do século XX se espalhou nos anos 30 com a inclusão de 26 gêneros diferentes, inclusive frutas e outros tipos de carne, como a bovina.

O toque de Midas foi dado dez anos depois de sua entrada no mercado de congelados, quando, em 1934, Birdseye encomendou à indústria de refrigeração American Radiator a fabricação, a baixo custo, de grandes quantidades de um freezer rudimentar.

Com grande estoque de aparelhos, a General Seafood Corporation alugava o equipamento aos varejistas por US$ 8,00 mensais mediante contrato que impedia a conservação, naquele freezer, de qualquer outro produto que não tivesse sua marca.

Na década de 40, os produtos Birdseye começaram a viajar em vagões frigoríficos – sendo distribuídos em vários estados americanos – e no serviço de bordo das companhias de aviação. Século XX adiante, hambúrgueres e alimentos de baixo teor calórico foram acrescentados ao cardápio.

Fonte

A PADROEIRA das donas de casa. O Globo. Rio de Janeiro, n. 10, 1999. Globo 2000, p. 222.

Médico e barbeiro de fama mundial

Médico e barbeiro de fama mundial

Metido num vagão ferroviário transformado em casa e consultório, o médico examinava o povo pobre de Lassance, lugarejo perdido no vale do Rio das Velhas, interior de Minas Gerais. Tinha sido mandado para lá pelo Governo federal para combater a malária que dizimava os operários de urna ferrovia. Porém, o desfile de doentes à sua frente convenceu-o de que, além da malária, havia ali um mal desconhecido. O jovem Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas estava prestes a realizar façanha inédita: a descoberta de uma doença com a descrição de causas, características patológicas, meios de transmissão e forma de prevenção – tudo feito por um só pesquisador.

No dia 22 de abril de 1909, aos 29 anos de idade e dois anos depois de ter iniciado sua pesquisa, Carlos Chagas anunciou a existência de uma nova doença causada por um protozoário do gênero Trypanosoma. Até então, conhecia-se a tripanossomíase africana, popularmente chamada de doença do sono. A variedade americana ficaria internacionalmente conhecida pelo nome de seu descobridor doença de Chagas em português; Chagas disease, em inglês; maladie de Chagas, em francês; Chagas Krankheit, em alemão. Embora apareça em todo o continente americano, é endêmica na América do Sul, especialmente nas áreas rurais de Brasil, Argentina e Chile, onde atinge 10% da população.

Chagas descobriu que o inseto transmissor da doença é o barbeiro, assim chamado por picar as pessoas no rosto para sugar-lhes o sangue. Vive nas frestas das paredes das casas de pau-a-pique. Examinando ao microscópio o intestino do inseto, o médico encontrou grande quantidade de protozoários de uma espécie desconhecida. Batizou o microorganismo de Trypanosoma cruzi, em homenagem a seu mestre e amigo Oswaldo Cruz. Como o barbeiro geralmente defeca ao sugar o sangue das vítimas, as fezes contaminadas pelos protozoários entram na corrente sangüínea.

O médico descobriu ainda que a doença apresenta as formas aguda e crônica. Na primeira, que ataca principalmente crianças, causa febre, anemia e inchação dos gânglios. Na segunda, que pode durar décadas, afeta o coração, geralmente matando suas vítimas por insuficiência cardíaca.

Carlos Chagas morreu em 1934, aos 55 anos. A doença que descobriu continua sem cura. Os medicamentos existentes servem apenas para tratar os sintomas. Assim, o único mecanismo eficaz ainda é a prevenção, com o combate ao inseto transmissor através do uso de inseticidas e da melhoria das condições de moradia nas áreas endêmicas, medidas propostas pelo próprio Chagas.

Fonte

MÉDICO e barbeiro de fama mundial. O Globo. Rio de Janeiro, n. 5, 1999. Globo 2000, p. 100.