sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pavor e fascínio da cauda do Halley

Pavor e fascínio da cauda do Halley

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Em 1695, o astrônomo inglês Edmond Halley (1656-1742), ao aplicar a lei da gravitação universal de Newton, determinou a órbita do cometa de 1682, que já vinha sendo observado há pelo menos três séculos, mas cuja periodicidade não havia ainda sido determinada, e previu o seu retorno para 1759, o que realmente aconteceu. Desde então o cometa passou a ser denominado cometa de Halley. Diversos estudiosos, analisando os relatos de historiadores e cronistas, concluíram que sua passagem vinha sendo assinalada desde a mais remota antigüidade; seu registro histórico mais remoto datava de 467 a.C. No Brasil, a mais antiga observação do cometa foi a registrada em setembro de 1608, no Maranhão, pelo padre jesuíta português Luiz Figueira (1574-1643). Existem também registros de observações no Brasil, durante a aparição de 1835, em fins de outubro e em princípio de novembro daquele ano, pelo visconde de Araruama, José Carneiro da Silva (1788-1864).

Depois da previsão de Halley, mostrando que os cometas obedeciam às leis da física e sobretudo depois da confirmação de que o cometa que hoje leva seu nome voltaria de 76 em 76 anos, aproximadamente – acreditou-se que todo o temor em relação aos cometas deveria cessar numa civilização racional e tecnologicamente desenvolvida. Em conferência no Collège de France, por ocasião da aparição do cometa de Halley em 1835, o astrônomo francês Jacques Babbinet (1794-1872) afirmou...

Duvido muito que o cometa de Halley, em seu próximo retorno, em 1910, estimule ainda a imaginação popular.

Infelizmente, o que ocorreu foi exatamente o contrário. Ao ser anunciado que a Terra atravessaria a cauda do cometa, uma onda de pânico se estabeleceu entre os povos de todo o mundo. Para agravar ainda mais o pavor, os astrônomos anunciaram a descoberta de cianogênio – gás mortífero – na cauda do cometa, alguns meses antes da passagem da Terra pela cauda, prevista para 18/19 de maio de 1910. À medida que se aproximava esta data, nos jornais de todo o mundo sucediam-se as mais alarmantes notícias provenientes dos EUA e da Europa, informando que os gases letais da cauda provocariam o extermínio de toda a população do globo terrestre, bem como a própria destruição do planeta.

Também no Brasil se temia o fim do mundo, apesar do artigo do astrônomo francês Camille Rammarion (1842-1925), que desmentia a possibilidade dessa catástrofe, ter sido publicado em jornais cariocas. O próprio Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, procurou esclarecer à população em artigos no Jornal do Commercio. Tudo em vão. No dia 18 de abril, por exemplo, a cidade parou para observar o cometa que, à luz do dia, aparecia ameaçador nos céus cariocas. Os jornalistas subiram o Morro do Castelo à procura dos astrônomos. Estes informaram que o astro visível era o planeta Vênus, próximo de seu máximo brilho. No dia seguinte, no Correio da Manhã, um jornalista concluiu: E aí está como a deliciosa Vênus embrulhou o rabudo Halley. Astúcias de mulher!

No entanto, apesar dos equívocos e subseqüentes ironias jornalísticas, a passagem do Halley pela Terra em 1910 foi a mais espetacular do século. Realmente, nosso planeta atravessou a cauda do cometa, porém sem maior efeito que uma fraca luminescência no céu. Os astrônomos brasileiros Morize (1860-1930) e Costa (1882-1956) registraram suas impressões e determinaram a posição precisa do cometa em 1910, no morro do Castelo – atual Esplanada do Castelo –, onde estava instalado o Observatório Nacional do Rio de Janeiro.

Esse cometa foi reobservado em 1986, quando uma enorme propaganda anunciou-o como o cometa do século, apesar ter sido previsto que essa aparição seria mais desfavorável do que a anterior. De fato, em 11 de abril de 1986, quando se deu sua aproximação máxima em relação ao nosso planeta, o cometa se encontrava à distância de 63 milhões de quilômetros, quase três vezes superior à distância mínima na passagem anterior – 23 milhões do quilômetros em 19 de maio de 1910.

Sabe-se que a cauda de um cometa alcança a sua maior extensão no periélio – menor distância do Sol –, quando a atividade solar, agindo sobre o envoltório gasoso do núcleo, produz um aumento do seu brilho. Assim, é depois da passagem pelo periélio que os cometas se tornam mais belos e luminosos. Mas essa situação dura pouco: à medida que o cometa se afasta do Sol, começa a perder o brilho e sua cauda vai se reduzindo. Ora, em 1910 o cometa esteve próximo da Terra cerca de um mês depois do periélio – 10 de abril de 1910; em 1986, ele só esteve próximo da Terra em abril, dois meses depois do periélio – 9 de fevereiro de 1986. Por isso a passagem de 1986 foi muito inferior, em beleza, à do início do século.

Além de sua posição e do brilho reduzido em relação à aparição de 1910, o marketing e o sensacionalismo da mídia, estimulados por alguns astrônomos, contribuíram para provocar uma grande decepção junto ao público leigo. Na realidade, a importância da passagem de 1986 estava na qualidade dos resultados que poderiam ser – e foram – obtidos com os sofisticados experimentos conduzidos pelas sondas espaciais russas, japonesas e européia. Como se esperava, elas foram incomparavelmente superiores às observações realizadas com telescópios convencionais.

O grande espetáculo de 1986 foi dado pelos jornais e canais de televisão, através da divulgação das imagens geradas por cinco sondas espaciais: duas japonesas – planeta A e MS-T5 –, duas soviéticas – Vega 1 e 2 – e uma européia – Giotto. Enquanto as sondas Vega 1 e 2 passaram em 6 e 9 de março de 1986, respectivamente, a 8.890 e 8.030km do núcleo do Halley, obtendo imagens de baixa resolução através de câmaras de televisão equipadas com teleobjetivas especiais, a Giotto passou, em 14 de março de 1986, a 605km, transmitindo imagens do núcleo e da cabeleira interna do cometa, por intermédio de uma câmara de varredura construída para a ocasião.

As imagens soviéticas revelaram que o núcleo possuía a forma irregular de uma batata com 14km de comprimento, 7,5km de espessura e 7,5km de largura. Nessas imagens, o núcleo se apresentou muito escuro, com um poder refletor da ordem de 4%, em oposição à idéia de que o núcleo fosse muito brilhante por ser constituído de gelo em sua maior parte. Na realidade, o seu solo parece revestido de uma camada de carbono que envolve o gelo subjacente. Além de muito irregular, sua superfície apresentava colinas e vales, assim como estruturas anulares de 500 metros – verdadeiras crateras por onde escapavam jatos de gases e poeiras. Presumia-se que o núcleo, ao ser aquecido pela radiação solar, liberasse rajadas de matérias que alimentavam a cabeleira. Dessas emissões, limitadas ao hemisfério iluminado pelo Sol, só nove jatos foram detectados.

Apesar disso, novos modelos do interior do núcleo devem ser elaborados. O núcleo observado pelas sondas se apresentou muito poroso, pelo menos em determinadas regiões, com uma densidade média compreendida somente entre um décimo e um quarto da densidade do gelo. No estudo das emissões do núcleo, como se previa, verificou-se que os jatos eram dominados (80%) pelo vapor d'água. Na passagem da Giotto, o cometa emitia cinco vezes mais gás do que poeira. A produção gasosa foi estimada em 20 toneladas por segundo.

Antes da passagem das sondas acreditava-se que a poeira liberada pelo núcleo era semelhante à dos meteoritos rochosos, como os condritos carbonáceos. As análises forneceram resultado muito diferente: algumas poeiras apresentam composição próxima à dos silicatos terrestres e outras são constituídas principalmente de carbono (C), hidrogênio (H), oxigênio (O) e nitrogênio (N), donde a sigla CHON empregada para designá-las. Outra surpresa foi a abundância de partículas muito pequenas, com massa de 10-17 gramas.

As sondas permitiram finalmente um estudo minucioso da interação do cometa com o vento solar: a um milhão de quilômetros do núcleo, a Giotto já começou a registrar uma nítida perturbação no vento solar provocada pelo cometa. Depois de haver atravessado a cabeleira, os fluxos de poeira se tornaram menos homogêneos do que o previsto.

A observação astronômica na superfície da Terra, apesar de toda a evolução tecnológica nesse intervalo de 76 anos, não conseguiu competir com as imagens das sondas. No início do século, poucos ousariam imaginar sondas interceptando o Halley. E, seguramente, os avanços serão muito superiores em 2061, data da próxima aparição. Talvez seja possível observar o cometa mesmo em sua posição mais afastada da Terra, nos limites do sistema solar. Em 1910 foram os telescópios. Em 1986, as sondas. Como será no Terceiro Milênio?

Fonte

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Pavor e fascínio da cauda do Halley. O Globo. Rio de Janeiro, n. 5, 20 jun. 1999. Globo 2000, p. 106.

A coragem do jovem Einstein

A coragem do jovem Einstein

As primeiras décadas do século XX foram marcadas por uma profunda revisão de nossos conceitos relativos à natureza física do mundo. Primeiro, a teoria da relatividade de Einstein reformulou a concepção de espaço e de tempo, mostrando como as definições então aceitas eram limitadas. Segundo a física newtoniana, o espaço e o tempo eram entidades absolutas, independentes do estado de movimento do observador. Einstein mostrou que existe uma inter-relação entre espaço e tempo, que são mais apropriadamente tratados como uma entidade única, o espaço-tempo quadridimensional – quatro dimensões: três para o espaço e uma para o tempo.

Essa unificação do espaço com o tempo leva a conseqüências que contrariam nosso bom senso. Por exemplo, Einstein mostrou que objetos em movimento têm suas dimensões contraídas na direção do movimento – a contração espacial – e que relógios em movimento batem mais devagar – a dilatação temporal. Nós não vemos esses efeitos, pois eles só são perceptíveis quando os movimentos ocorrem a velocidades próximas à da luz – 300 mil quilômetros por segundo. Uma das conseqüências da teoria da relatividade é que nós vivemos em uma realidade aproximada, newtoniana, que esconde toda uma outra realidade relativística, onde comprimentos e intervalos temporais são sujeitos a mudanças.

Mas a teoria da relatividade não foi a única a expandir as fronteiras de nossa realidade física. Uma outra revolução conceitual ocorreu quase que ao lado da que houve na compreensão da estrutura do espaço-tempo causada pela relatividade: a revolução em nossa compreensão da física do muito pequeno, a física quântica. Mesmo com a invenção do microscópio tendo, desde o final do século XVII, revelado um mundo diferente do nosso, povoado por células etc., este era ainda um mundo que seguia as leis newtonianas de movimento. Mas experiências no século XIX obtiveram resultados inexplicáveis pela física clássica. A explicação desses resultados experimentais forçou um realinhamento conceitual da física que pegou a maioria dos físicos de surpresa. A palavra forçou é mesmo muito adequada.

Tudo começou quando o físico alemão Max Planck sugeriu, em 1900, que átomos não recebiam nem emitiam energia continuamente, mas em pequenos pacotes, ou quanta. Essa idéia era perturbadora; até então, a energia era tratada como uma quantidade contínua. Planck tentou, durante anos, explicar sua idéia de forma clássica, isto é, mostrar que a descontinuidade da energia era conseqüência de conceitos determinísticos baseados na física newtoniana. Mas seus esforços foram em vão: a interação entre átomos e radiação era mesmo efetuada por meio de pequenos pacotes de energia e seus múltiplos, da mesma forma que transações monetárias são feitas em termos de centavos e seus múltiplos. O centavo é o quantum monetário.

As idéias de Planck inspiraram o então jovem Einstein a pensar mais profundamente sobre a natureza da radiação eletromagnética, cuja porção visível nos é familiar em forma de luz. No mesmo ano em que ele propôs a teoria da relatividade especial – 1905 –, Einstein publicou um artigo em que indica que a própria luz tem um comportamento dual, atuando ora como onda, conforme era aceito na época, ora como partícula. Como prova de sua conjectura, Einstein explicou um resultado experimental conhecido como efeito fotoelétrico, pelo qual a radiação ultravioleta pode remover elétrons de uma placa metálica eletricamente neutra, tornando-a carregada. O Prêmio Nobel que ele ganhou em 1921 não foi pela teoria da relatividade, mas pelo efeito fotoelétrico. Ambas as idéias demonstram a coragem intelectual do jovem Einstein que, aos 26 anos, lançou as sementes das duas grandes revoluções da física deste século. E essas não foram as únicas duas sementes que o jovem Einstein plantou então...

Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro A dança do Universo.

Fonte

GLEISER, Marcelo. A coragem do jovem Einstein. Folha de São Paulo, São Paulo, 11 abr. 1999. Especial para a Folha, p. 5-12.


Os cientistas são de fato criativos?

Os cientistas são de fato criativos?

Para constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas, é preciso ter acesso democrático à boa educação formal

Alguns educadores e psicólogos de várias partes do mundo concluíram, independentemente, que crianças são cientistas natos porque têm a curiosidade que impele a criatividade dos cientistas. Antes de discutir por que as crianças perdem a curiosidade científica à medida que são educadas, interessa discutir por que os cientistas fazem ciência.

Desprezamos desde já a mitificação do saber especial do cientista que transcende os limites humanos da ignorância e erro.

Ao contrário, consideramos os cientistas pessoas comuns que desempenham um tipo de função que parece incomum para a maioria dos leigos. Isso acontece em parte porque, no transcurso da investigação científica, o cientista desenvolve uma linguagem particular, a qual limita a compreensão dos não-iniciados.

Esse isolamento funciona, às vezes, de modo corporativo, como escudo protetor a críticas. Ironicamente, o exercício da crítica, indispensável ao desenvolvimento do conhecimento científico, não ocorre sempre e, assim, não alcança os resultados que deveria por causa de reações emocionais contrárias de certos cientistas imaturos e inseguros da consistência dos seus argumentos. Basta uma rápida olhada na História da Ciência para verificar a formação de escolas científicas corporativas. Além disso, de Pitágoras a Einstein, a ciência tem seus folclores e fraudes. O grande astrônomo Kepler, por exemplo, datou a criação do mundo em 27/4/4977 a.C., imaginando estar corrigindo o erro do bispo James Usher, que a havia fixado em 26/10/4004 a.C. Robert Millikan, Prêmio Nobel de Física de 1923, trapaceou selecionando os melhores resultados das medidas de carga do elétron. Suas experiências eram muito delicadas e ele classificava os resultados obtidos em excelentes, passáveis e rejeitáveis. Do total de 140 resultados, ele selecionou para publicação só 58! Essa trapaça figura claramente nos cadernos de laboratório de Millikan. O grande naturalista inglês Alfred Russel Wallace passou o final de sua carreira tentando comunicar-se com os mortos!! Portanto, o cientista também carrega todas as qualidades, todos os defeitos e todas as contradições comuns aos mortais. Apesar das fraudes, o que torna a ciência um empreendimento válido não é apenas o fato de que seus resultados sempre sejam corretos, mas o fato de que eles são passíveis de discussões e de rejeições por outros colegas experientes que os criticam antes de serem publicados em revistas científicas de boa qualidade.

Isso posto, interessa-nos agora discutir porque, à semelhança de um artista, o cientista cria modelos originais e engenhosos para descrever os fenômenos naturais. Consideramos que a criatividade, em qualquer campo do conhecimento humano, tenha os fundamentos biológico e cultural. A criatividade humana pode ter uma base biológica como qualquer outra atividade racional ou emotiva. A interação de seres humanos em desenvolvimento com o meio ambiente em constante modificação resulta na exteriorização de comportamentos individuais ou sociais, que dependem de atividades bioquímicas e biofísicas celulares. Admitimos também que o padrão dessas respostas seja variável em diferentes ambientes e contextos socioculturais, significando que o ambiente também pode influenciar na exteriorização da criatividade. O escritor José Saramago, por exemplo, associa sua admirável criatividade literária com o ambiente rural onde foi criado, sob forte influência de um avô que conversava com árvores.

Associações de raciocínios científicos a paisagens, animais ou plantas podem estar presentes no processo criativo, porque interagimos muito fortemente com os demais componentes da natureza. Mesmo um químico como Kekulé, que passou a maior parte de sua vida em um laboratório, teve um sonho, no qual visualizou uma serpente que mordia sua própria cauda e, desse modo, assumia para ele a configuração química do conhecido anel hexagonal de benzeno, estrutura que o químico sugeriu ser básica em muitos compostos orgânicos.

Diz-se, muitas vezes, que não pode haver uma explicação natural para a criatividade. Alguns afirmam, por exemplo, que as composições de Mozart não têm correção e que, portanto, as melodias devem ter saído da própria mente de Deus. No entanto, gênios são trabalhadores incansáveis. O gênio típico trabalha arduamente, noite e dia, por vários anos antes de dar alguma contribuição de valor permanente. Durante seu período de formação, mergulha em sua área de atuação, absorvendo centenas de problemas e soluções. Assim, nenhum desafio é completamente novo e ele pode recorrer a um vasto repertório de padrões e estratégias.

O que é preciso para se constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas é o acesso democrático à boa educação formal. O mundo atual exige maior criatividade das pessoas. Assim, para que seja estimulada a criatividade, um bom ensino deve ter duas qualidades básicas: guiar o aluno pelo caminho da disciplina exigida pelo trabalho intelectual e mostrá-la, de forma crítica, a diversidade e os contrastes de conteúdos do saber humano. Todavia, desconfiamos que a deficiência estrutural de muitas escolas e a formação dos professores possam inibir o desenvolvimento da criatividade nas crianças. Com a palavra, educadores e psicólogos educacionais!

Acreditamos que todos os seres humanos possam ser criativos. Muito embora, recentemente, tenham sido registradas diferenças na forma do cérebro de Einsten – mera variação individual! –, os cientistas não têm cérebros especiais com maiores capacidades de criar novas e boas idéias. Ao contrário, como acontece com qualquer um, os cientistas só às vezes têm boas idéias.

Rogério é professor de Ecologia do ICB/UFMG, e Francisco é professor da Fafi-Sete Lagoas. Ambos são do Grupo de Estudos Interdisciplinares da UFMG.

Fonte

PARENTONI, Rogério; COUTINHO, Francisco Ângelo. Os cientistas são de fato criativos? Jornal da Ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 419, ago. 1999.

Uma ciência para cidadãos

Uma ciência para cidadãos

Hiroshima, Chernobil, catástrofe da usina química Bhopal: o século XX foi marcado por eventos trágicos que semearam a dúvida sobre o papel emancipador da ciência.

Esses horrores, que se acrescentam a outras catástrofes no mundo do trabalho – minas, transportes etc. –, suscitaram um certo desencanto em relação à ciência e à tecnologia. Esse fenômeno traduziu-se em uma escalada da militância antinuclear ou ecologista no Ocidente e pela proliferação de associações em favor de uma ciência cidadã. Na Índia, por exemplo, grupos como o Kerala Shastra Sahitya Parishad esforçam-se para divulgar a informação científica, estimular o espírito crítico da população e obter que os resultados das pesquisas sejam colocados a serviço das necessidades vitais.

Para muitos, esse desencanto está ligado a outros fatores, particularmente graves nos países em desenvolvimento, que contribuem com menos de 10% das despesas mundiais em P&D. Esses países viram surgir com a globalização, no rastro das privatizações e do liberalismo econômico, uma nova concepção da ciência – agora considerada uma mercadoria. Uma vez que se aplicam os critérios do mercado para orientar e avaliar a pesquisa, a ciência é cada vez menos considerada um bem público. Certos sinais evidentes demonstram que as pesquisas mantidas a serviço desse ideal estagnaram ou retrocederam. O que não deixa de causar sérios problemas a países em desenvolvimento como a Índia, onde o Estado garante mais de 80% do financiamento de P&D.

Os pesquisadores desses países, universitários ou não, têm a responsabilidade social fundamental de preservar a ciência dos interesses comerciais, estes baseados na idéia de que o conhecimento é um bem privado. Os Estados deveriam encorajar a ciência enquanto bem público até as sociedades terem absorvido os choques engendrados pelas forças do mercado.

Certos avanços científicos e tecnológicos vão de encontro a valores éticos largamente partilhados. A revolução da informação ameaça a vida privada; a revolução biológica poderia subverter a natureza humana e questionar a unicidade do indivíduo. Há inovações científicas e tecnológicas mais temíveis que outras. Os agricultores utilizam maciçamente pesticidas e herbicidas mesmo conhecendo os perigos que estes representam a longo prazo para o ser humano. Fazem-se experiências cruéis com animais, principalmente para avaliar os perigos de certas substâncias químicas. Como observou o indiano Kamla Chowdry, especialista em meio ambiente, as tecnologias desenvolvidas pelas grandes potências para as indústrias de armas, agroalimentares e de bens de consumo são portadoras de violência e ameaçam valores como compaixão, ajuda mútua, respeito e espiritualidade.

Novos mecanismos de decisão

As questões da eqüidade e do consumo sustentado estão estreitamente ligadas aos aspectos hegemônicos e violentos da ciência e da tecnologia modernas. Não se pode falar de desenvolvimento sustentado sem se refletir sobre os modelos de consumo das sociedades contemporâneas. O problema crucial é saber se os países desenvolvidos estão dispostos a diminuir seu consumo de energia não-renovável.

Essas reflexões conduzem sempre à mesma questão: que fazer para que a ciência e a tecnologia atendam às necessidades essenciais das sociedades, sobretudo nos países de baixa e média renda? Creio ser necessário desenvolver um processo democrático a fim de definir um novo contrato social entre ciência e sociedade. Para tanto, impõem-se quatro condições. Em primeiro lugar, o poder de decisão não deveria ser monopolizado por uma elite política e científica, com freqüência ligada aos interesses do setor privado. Os representantes de numerosos grupos de interesse, como os movimentos por uma ciência cidadã, e outros grupos de defesa dos direitos sociais, deveriam participar das decisões. A democracia não poderá funcionar se não trabalhar pelo bem-estar da população e se a distribuição da renda não for mais eqüitativa. Para democratizar o acesso às mudanças tecnológicas, é preciso criar novos mecanismos de decisão e elaborar redes de segurança. Por exemplo, sobre temas como a biodiversidade e a biotecnologia, as comunidades tribais isoladas dos países do Sul deveriam ser representadas no seio das comissões oficiais. Deve-se levar em conta seu ponto de vista para rever certos programas internacionais, sobretudo os que foram propostos pela Convenção das Nações Unidas sobre a Biodiversidade e pela Cúpula do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992. Nos países em desenvolvimento, onde as orientações das pesquisas seguem, sobretudo, as exigências e necessidades das elites privilegiadas, os governos devem estimular esses modos de decisão participativos. Eles deveriam ainda aumentar os orçamentos dos projetos de pesquisa ligados à segurança, sejam públicos ou privados.

O princípio de proximidade

Segundo imperativo: conscientizar as pessoas quanto aos possíveis impactos da ciência e da tecnologia sobre a vida, a fim de combater o determinismo tecnológico. Nesse nível, os grupos de militantes que se interessam pela ciência, como os existentes na Índia, têm importante papel a cumprir. Deveriam ser mantidos por seus governos.

Terceiro ponto: nos países em desenvolvimento, dever-se-ia perguntar por que as prioridades da pesquisa universitária são fixadas em função de problemas essencialmente ocidentais. A maioria das pesquisas é certamente importante para o avanço do conhecimento científico, mas não têm interesse imediato para os países em desenvolvimento. Enquanto isso, os laboratórios científicos e as universidades do Sul pouca atenção dão aos problemas que afetam diretamente seus cidadãos, como desnutrição, pobreza, poluição e riscos industriais. O efeito de proximidade deveria levá-los a dedicar parte de seus esforços a essas questões, em colaboração com especialistas das ciências sociais. Os representantes das comunidades locais poderiam muito associar-se a esse tipo de pesquisa, no âmbito de instituições conhecidas.

Os valores científicos e democráticos estão estreitamente ligados. Para se usufruir os benefícios da democracia, é preciso que os cidadãos desenvolvam uma consciência científica – incluídos o ceticismo, a dúvida, o rigor e revisem seu conceito de interesse público.

Fonte

KRISHNA, V.V. Uma ciência para os cidadãos. Caderno Unesco, FGV: São Paulo, jul. 1999.

CONHECIMENTO CIENTÍFICO

CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Tipo de conhecimento que se contrapõe ao conhecimento empírico, pois dá ênfase às causas e leis em detrimento dos efeitos.


Teoricamente, é um saber ordenado e lógico, que possibilita a formulação de ideias, construindo um processo complexo de pesquisa, análise e síntese.


É o conhecimento racional, sistemático, exato e verificável.

CONHECIMENTO EMPÍRICO

Saber obtido de ações não planejadas, ou seja, ao acaso. É adquirido sem reflexão ou aplicação de métodos. Surge no trato direto com as coisas e os seres humanos, sendo assimilado por tradição, experiências causais, ingênuas. Portanto, pode-se dizer que é superficial, sensitivo, subjetivo, assistemático e acrítico.

Também é conhecido como conhecimento popular ou vulgar.

Poemas inconjuntos - 2

Poemas inconjuntos - 2

VERDADE, MENTIRA, certeza, incerteza...

Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.

Estou sentado num degrau alto dos joelhos cruzados.

Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?

Qualquer cousa mudou numa parte da realidade –

Os meus joelhos já não são as minhas mãos.

Qual a ciência que tem conhecimento para isto?

O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.

Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.

Ser real é isto.

Fonte

PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio I: poemas completos de Alberto Caeiro.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 105.

Poemas inconjuntos - 1

Poemas inconjuntos - 1

O ÚNICO mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as cousas – eis o erro, a dúvida.

O que existe transcende para mim o que julgo que existe.

A Realidade é apenas real e não pensada.

Fonte

PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio I: poemas completos de Alberto Caeiro.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 116.