quinta-feira, 10 de junho de 2010

O valor da ciência e da divulgação

O valor da ciência e da divulgação


Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais?

O sujeito (cientista), em seu relacionamento com o mundo (atividade científica), consigo mesmo e com o absoluto, nada encontra de firme.

A existência é algo incerto e inseguro. (Kierkgaard)

O conhecimento científico tem as qualidades de imperfeição e dúvida, por isso não há consenso na comunidade científica.

Outra característica importante da atividade científica é a de que a ciência não é panacéia universal. Ocorre com freqüência o oposto: por exemplo, a aplicação dos princípios teóricos e tecnológicos para a elaboração de armas nucleares.

Assim, muitos cientistas trabalham para a indústria militar, que por cruel ironia produz emprego e riqueza em certas nações, que, por conseqüência, dispõem de mais recursos para investir na atividade científica – este não é caso do Brasil, onde se produzem 80% das minas que mutilam africanos. Seres humanos são usados como cobaias para estudar certas doenças, como ocorreu em Tuskegee, Alabama, de 1932 a 1972. Nesse estudo, foi informado a um grupo de 309 negros com sífilis e outro com 210 sem a doença, que estavam com o sangue ruim. A todos foi prometido tratamento (penicilina), mas recebiam somente água com açúcar. Em 69, morreram 28, em 72, 74, e, em 97, apenas sete sobreviveram. Além disso, a ciência e tecnologia produziram talidomida, CFC – responsável por parte da destruição da camada de ozônio, gases que atacam o sistema nervoso, poluições diversas que podem arruinar o clima do planeta e extinguir espécies animais e vegetais.

Tais imperfeições da prática científica têm justificado para alguns o aumento da propagação da crença em superstições ou explicações pseudocientíficas: se a ciência nem sempre está correta e não é uma fonte de riquezas morais, então o melhor é buscar uma ciência alternativa. Uma vez colocados em dúvida os conhecimentos científicos, abre-se o caminho para crenças sobre a vida emocional das plantas, continentes que emergem e afundam rapidamente, Terras ocas, canalização dos mortos, deuses astronautas, estupro astral, alienígenas entre nós, civilizações subterrâneas e criacionismo científico.

Um dos responsáveis pelo apego a superstições é o desconhecimento de como a atividade científica é desempenhada.

Antes, porém, algo deve ser dito sobre os que acreditam na ciência alternativa. Desde os gregos, sabemos que o desejo de conhecer o mundo é inerente à nossa natureza. Por isso, pessoas que pagam por crenças e superstições, em boas livrarias, não devem ser consideradas ignorantes. Elas desejam sinceramente compreender e sondar o mundo ao seu redor, mas, por não entenderem como o conhecimento científico é adquirido, caem no conto do vigário, crendo estar comprando livros com alguma informação sensata.

A ciência tem muitas deficiências. Porém, para investigar fenômenos naturais e fornecer soluções para problemas concretos, o procedimento científico é o melhor de que dispomos.

Além disso, os conhecimentos produzidos podem ser testados e, se necessário, corrigidos.

O máximo que o cientista pode esperar é o aperfeiçoamento de seu conhecimento pela colaboração e crítica, inerentes ao conhecimento científico. Inversamente, a pseudociência produz certezas imunes à crítica e correções. Como debater ou corrigir o que não se tem acesso?

A ciência moderna tem conseguido avançar em várias áreas. Doenças que vitimavam a humanidade têm sido curadas. A expectativa de vida na Europa Ocidental passou de 30 anos, na Idade Média, para 50, em 1915, e se aproxima dos 75 anos. Caso haja vontade política, já há meios eficientes e seguros de produzir mais alimentos nutritivos. Conhecemos muito da intimidade constitutiva da matéria e dispomos de boas hipóteses sobre a origem do Universo. O conhecimento da mais incipiente das ciências tem mais valor do que toda a história da astrologia. Prever eclipses com séculos de antecedência não é um problema difícil para a astronomia – mas em 11 de agosto de 1999 não ocorreu o fim do mundo!

Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais?

Uma das respostas é a de que o desconhecimento da capacidade explicativa limitada da ciência, abre caminho para a superstição. Quando uma pessoa adoece, ela pode tomar remédio, rezar ou ambos. Se ela reza e não toma o remédio é porque está convicta do poder curativo da reza e desconhece ou despreza um tratamento cientificamente comprovado.

Esta dificuldade em se perceber o valor da ciência resulta da linguagem hermética dos cientistas. O conhecimento científico assim fica restrito às quatro paredes das Universidades e Institutos de Pesquisas.

Apenas a democratização do conhecimento o tornará acessível e capaz de barrar o avanço da superstição e da pseudociência. Para mostrar que a divulgação científica é possível, basta citarmos Carl Sagan, Stephen Jay Gould, Edward Wilson e o brasileiro José Reis.

Um livro árido como supostamente deveria ser um sobre história da Filosofia, esteve, há pouco tempo, na lista dos mais vendidos. Atividades de extensão e aperfeiçoamento de professores do ensino básico e fundamental podem ser realizadas por cientistas sem comprometer seu tempo de dedicação à pesquisa.

Basta que mudem sua linguagem. É o mínimo que se espera numa democracia, onde as pessoas precisam se entender. Aliás, esse seria um serviço útil dos cientistas à própria compreensão da ciência que tanto prezam.

Finalmente, se quisermos o apoio da sociedade às reivindicações de mais verbas para a pesquisa, devemos divulgar para o público, ou mesmo facilitar para que um jornalista o faça, o valor social da atividade que desempenhamos.

Fonte

O VALOR da ciência e da divulgação. Jornal da ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 420, set. 1999.

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações

No que diz respeito à relação ciência e sociedade, devemos admitir...

1) onde as ciências naturais se encontram e onde elas estão liderando, qual tem sido seu impacto social e o que a sociedade espera delas;

2) que no século XXI, a ciência deve se tornar um benefício compartilhado por todas as pessoas, com base na solidariedade, que a ciência é um recurso poderoso para a compreensão dos fenômenos naturais e sociais e que o seu papel promete ser ainda maior no futuro, quando a complexidade crescente do relacionamento entre a sociedade e o ambiente for melhor compreendida;

3) a necessidade sempre crescente do conhecimento científico no momento de decisões pública e privada, incluindo notadamente o papel a ser representado pela ciência na formulação de política e decisões reguladoras;

4) que o acesso ao conhecimento científico para propósitos pacíficos, como era feito há muito tempo, é uma parte do direito à educação que todos os homens e mulheres têm, e que a ciência da educação é essencial para o desenvolvimento humano, para criar capacidade científica endógena e para criar cidadãos ativos e informados;

5) que a pesquisa científica e suas aplicações podem produzir retorno significativo em direção ao crescimento econômico, ao desenvolvimento humano sustentável, incluindo a diminuição da pobreza, e que o futuro da humanidade tornar-se-á mais dependente da produção eqüitativa e do uso do conhecimento como nunca foi antes;

6) que a pesquisa científica é a mais forte tendência em relação aos cuidados de saúde e sociais e que, ao se fazer maior uso do conhecimento científico, cria-se um grande potencial para melhorar a qualidade da saúde para a humanidade;

7) o processo atual de globalização e o papel estratégico do conhecimento científico e tecnológico dentro dele;

8) a necessidade urgente de se reduzir o vácuo existente entre o desenvolvimento e os países desenvolvidos, no intuito de se melhorarem a capacidade científica e a infra-estrutura dos países em desenvolvimento;

9) que a revolução da informação e da comunicação oferece novos e mais eficientes meios para mudar o conhecimento científico e melhorar a educação e a pesquisa;

10) a importância para a pesquisa científica e para a educação com acesso amplo e claro a informações e dados de domínio público;

11) o papel representado pelas ciências sociais na análise das transformações sociais relacionado ao desenvolvimento científico e tecnológico e à procura por soluções do problema gerado no processo;

12) as recomendações das principais conferências conveniadas aos sistemas de organizações das Nações Unidas e outras organizações e os encontros associados com a Conferência Mundial sobre a Ciência;

13) que a pesquisa científica e o uso do conhecimento científico deveriam respeitar os direitos humanos e a dignidade do ser humano em concordância com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e com a ajuda dada pela Declaração sobre o Genoma Humano e Direitos Humanos;

14) que algumas aplicações da ciência podem ser prejudiciais ao indivíduo e à sociedade, ao meio ambiente e à saúde humana, e possivelmente até ameaçar o a continuidade da existência das espécies, e que a contribuição da ciência é indispensável à causa da paz, do desenvolvimento, da segurança global e da despreocupação global;

15) que os cientistas, juntamente com outros participantes mais importantes, têm a responsabilidade especial de procurar se prevenir contra as aplicações da ciência que estão eticamente erradas ou que têm um impacto adverso;

16) que necessitam praticar e aplicar as ciências em conformidade com os requisitos éticos apropriados, desenvolvidos com base em um intenso debate público;

17) que o propósito da ciência e o uso do conhecimento devem respeitar e manter a vida com todas as suas diversidades, bem como os sistemas de manutenção da vida de nosso planeta;

18) que há uma desigualdade histórica na participação dos homens e das mulheres em todas as atividades relacionadas com a ciência;

19) que há algumas barreiras que têm obstruído a participação total de outros grupos, de ambos os sexos, incluindo pessoas inaptas, nativas e minorias étnicas que, daqui por diante, serão referidas como grupos desfavoráveis;

20) que os sistemas de conhecimentos locais e tradicionais como as expressões dinâmicas de percepção e compreensão do mundo podem dar, e historicamente têm dado, uma contribuição valiosa para a ciência e para a tecnologia, e que há uma necessidade de preservar, proteger, pesquisar e promover essa herança cultural e o conhecimento empírico;

21) que um novo relacionamento entre a ciência e a sociedade é necessário para enfrentar os problemas globais urgentes, como a pobreza, a degradação ambiental, a saúde pública inadequada, a insegurança no alimento e na água, e os associados, em particular, com o crescimento da população;

22) a necessidade de um forte comprometimento com a ciência por parte dos governos, da sociedade civil e do setor produtivo, assim como um forte comprometimento dos cientistas para com o bem-estar da sociedade.

Fonte

DECLARAÇÃO sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações. [S.l.: s.n].

O porquê e o como

O porquê e o como

Volta e meia, leitores me perguntam sobre os limites da ciência, sobre até onde nós podemos chegar, munidos que somos de um cérebro finito. Afinal, como podemos responder a todas as perguntas se mal sabemos formulá-las? E, mesmo se soubéssemos, será que existe um limite máximo do conhecimento, uma espécie de barreira além da qual a nossa razão não pode penetrar? Será que é justamente a existência dessa barreira que justifica o nosso apetite por assuntos espirituais, místicos, que transcendem os limites da razão?


Sem a menor dúvida, nos últimos 400 anos a ciência progrediu imensamente, revelando mundos absolutamente fantásticos e inesperados: com os microscópios, vislumbramos um mundo repleto de minúsculos seres vivos, de células, de estruturas minerais e cristais belíssimos. Em níveis ainda menores, descobrimos o mundo dos átomos e das partículas elementares, os tijolos fundamentais da matéria. Com os telescópios, vislumbramos mundos distantes, de estrelas e planetas a galáxias e buracos negros, alguns a bilhões de anos-luz de distância, mais velhos do que a Terra. Seria inútil tentar fazer justiça às nossas descobertas neste ensaio ou mesmo em outro muito maior. O próprio sucesso da ciência redefine os seus limites, como um horizonte que se afasta continuamente. Muitos acreditam que, devido a esse sucesso, um dia teremos todas as respostas. Eu não poderia discordar mais.


O meu avô dizia, sabiamente, que, se usarmos um chapéu maior do que a nossa cabeça, ele cobrirá os nossos olhos. Acho importante manter isso em mente quando lidamos com os limites do conhecimento humano. Vamos começar de modo bastante abstrato, falando da quantidade total de informação: supondo que o Universo seja finito, ele tem uma quantidade finita de informação. Mesmo se ele não for finito (o que é bem mais provável), nós só podemos nos comunicar com a velocidade da luz (até que se prove o contrário), e, portanto, vivemos em uma ilha de informação limitada pela idade do Universo, de 14 bilhões de anos. Como a luz viaja a uma velocidade fixa no vácuo, no máximo podemos receber informação de um evento que ocorreu há 14 bilhões de anos. O problema é que a complexidade do Universo é tamanha e os arranjos de matéria, tão variados, que seria impossível poder armazenar conhecimento sobre tudo que existe, vive e ocorre no Universo. Portanto, só podemos ter informações aproximadas sobre o cosmo, jamais perfeitas e completas.


Os cientistas sabem disso e constroem os seus modelos sobre os fenômenos naturais de forma aproximada, deixando de lado detalhes irrelevantes. Ou seja, os cientistas usam o mínimo de informação possível em sua descrição da natureza. Por exemplo, para modelar a órbita da Lua em torno da Terra não são necessários detalhes sobre a geologia dos dois corpos celestes. Bastam as suas massas e distância entre eles. Mais ainda, a ciência não se propõe a responder perguntas do tipo Por quê? Por exemplo, por que duas massas sentem uma força atrativa, que chamamos de gravidade? Não sabemos. Em 1687, o inglês Isaac Newton obteve uma fórmula descrevendo como dois corpos se atraem, com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado de sua distância. Mas ele não saberia dizer por que as duas massas se atraem. Em 1915, Albert Einstein propôs a sua teoria da gravitação, onde essa atração se deve à curvatura do espaço em torno das massas. Porém, ele também não saberia explicar por que a presença de uma massa encurva a geometria do espaço à sua volta. A ciência explica o como, não o porquê.


Voltando à questão da barreira do conhecimento, eu não acredito que ela exista. Ou, se existe, ela tem uma fronteira móvel, que vai se alargando com o tempo: ecoando o grego Sócrates, quanto mais aprendemos sobre o mundo e sobre nós mesmos, mais aprendemos o quanto não sabemos. A natureza é muito mais esperta do que nós, com as nossas explicações de como isso ou aquilo funciona. Afinal, nós também somos produtos de sua criatividade, o que necessariamente implica que seremos sempre incapazes de compreendê-la em sua totalidade. Se existe algo de fascinante aqui é a nossa capacidade de aprender tanto sobre o mundo, dadas as nossas limitações. Algumas questões, especialmente aquelas ligadas a origens, desafiam a nossa imaginação: será que algum dia iremos entender como surgiu o Universo, a vida e a mente? Acredito que sim, mas não antes de surgirem outras questões impossíveis.

Fonte

GLEISER, Marcelo. O 'porquê' e o 'como'. Folha de São Paulo, São Paulo, [200-].



Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: preâmbulo

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: preâmbulo

1) todos nós vivemos no mesmo planeta e somos parte da biosfera. Nós viemos para admitir que estamos em uma situação de crescente independência e que o nosso futuro está intimamente ligado ao sistema global de subsistência e à sobrevivência de todas as formas de vida. As nações e os cientistas estão convocados a compreender a urgência de se encontrarem, com a ajuda de todos, os campos da ciência, a maneira responsável para tratar das necessidades e aspirações, não fazendo uso desse reconhecimento de forma errônea. Nós procuramos colaboração ativa por meio de esforço em todos os campos científicos, isto é, nas ciências naturais, tais como a Física, nas ciências biológicas e da terra, nas ciências biomédicas e de engenharia, e nas ciências humanas e sociais. Enquanto a Estrutura para Ação enfatiza as promessas, o dinamismo, ela também enfatiza os efeitos potenciais e adversos que vieram com as ciências naturais, a necessidade de se compreender seus impactos, suas relações com a sociedade, o compromisso com a ciência, bem como os desafios e as responsabilidades demonstradas nesta Declaração, que se referem a todos os campos da ciência. Todas as culturas podem contribuir com o conhecimento científico de valor universal. As ciências devem se colocar a serviço da humanidade como um todo e devem contribuir para dar a todos um entendimento mais profundo da natureza e da sociedade, uma melhor qualidade de vida e um ambiente sustentável e sadio para as gerações presentes e futuras;

2) o conhecimento científico já ocasionou inovações notáveis, que têm sido de grande benefício para a humanidade. A expectativa de vida aumentou surpreendentemente e curas para muitas doenças têm sido descobertas. A produção agrícola tem aumentado significativamente em muitas partes do mundo para fazer face à necessidade da crescente população. Os desenvolvimentos tecnológicos e o uso de novas fontes de energia têm criado a oportunidade de libertar a humanidade do árduo trabalho forçado. Eles também têm tornado possível a geração de uma cadeia de produtos industriais e processos expansíveis e complexos. Tecnologias baseadas em novos métodos de comunicação, de manipulação de informação e de computação têm trazido oportunidades sem precedentes e desafio para o empenho científico e também para a sociedade como um todo. Quando, constantemente, melhoramos o conhecimento científico da origem, das funções e da evolução do universo e da vida, estamos fornecendo à humanidade uma abordagem conceitual e prática que influencia profundamente sua conduta e seus prospectos;

3) além de seus benefícios demonstráveis, as aplicações dos progressos científicos, o desenvolvimento e a expansão da atividade humana têm também levado à degradação ambiental e a desastres tecnológicos que contribuem para o desequilíbrio ou para a exclusão social. Por exemplo, o progresso científico tornou possível a fabricação de armas sofisticadas, incluindo armas convencionais e armas de destruição em massa. Agora, é oportuno exigir uma redução no que se refere à fabricação de novas armas, encorajando a troca, ao menos parcialmente, da produção militar para a pesquisa das facilidades de uso civil. As Nações Unidas proclamaram o ano de 2000 como o Ano Internacional para a Cultura da Paz e, o ano de 2001, como o Ano das Nações Unidas para o Diálogo entre as Civilizações em direção a uma paz duradoura; a comunidade científica, juntamente com os outros setores da sociedade, pode e deve representar um papel essencial nesse processo;

4) hoje, enquanto os progressos sem precedentes nas ciências são previstos, há necessidade de um forte e esclarecedor debate democrático sobre o uso do conhecimento científico. A comunidade científica e os tomadores de decisões devem procurar o fortalecimento da confiança e do apoio públicos para a ciência por meio desse debate. Maiores esforços interdisciplinares, envolvendo as ciências naturais e sociais, são pré-requisitos para se lidar com os problemas ético, social, cultural, do meio-ambiente, de sexo, econômico e da saúde. Para que a participação da ciência aumente no sentido de se construir um mundo mais justo, mais próspero e mais sustentável, há a necessidade de um compromisso, no longo prazo, de todos os interessados públicos e privados. Esse compromisso se afirmaria por meio de um maior investimento, de uma revisão das prioridades do investimento e da participação do conhecimento científico;

5) a maioria dos benefícios da ciência é irregularmente distribuída. Isso é resultado das assimetrias estruturais entre países, regiões e grupos sociais, e entre os sexos. Da mesma forma que o conhecimento se tornou um fator crucial na produção de riqueza, sua distribuição também se tornou mais injusta. O que distingue o pobre do rico – sejam pessoas ou países – não é somente a quantidade de recursos. A questão é que os pobres são largamente excluídos da criação e dos benefícios do conhecimento científico;

6) nós fomos participantes da Conferência Mundial sobre A Ciência para o Século XXI: um Novo Compromisso, realizada em Budapeste, Hungria, de 26 de junho a 1º de julho de 1999, com o patrocínio da Organização Educacional Científica e Cultural das Nações Unidas (UNESCO) e do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU).

Fonte

UNESCO. Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico. Disponível em: http://www.unesco.org.br/publicacoes/copy_of_pdf/decciencia.pdf . Acesso em: 24 jan. 2005.

Big bang, o universo começou com uma grande explosão

Big bang, o universo começou com uma grande explosão

Parece incrível, mas num passado remotíssimo toda a matéria que observamos hoje no Universo – distribuída em 100 bilhões de galáxias, cada uma com mais de 100 bilhões de estrelas, dentre as quais o nosso modesto Sol – pode ter estado tão extraordinariamente concentrada que caberia até com folga na ponta de uma agulha.

Nesse mundo, além de toda imaginação, a densidade da matéria atingiria o valor de 1090 quilos por centímetro cúbico – um número que se escreve com o algarismo 1 seguido de noventa zeros. A densidade das rochas comuns existentes hoje na terra é de apenas alguns gramas por centímetro cúbico. O Universo, então, seria não apenas superdenso, mas também superquente: a temperatura atingiria o fantástico patamar de 1031 graus Kelvin – mais de um bilhão de bilhão de bilhão de vezes a temperatura média do Sol. Por mais inacreditáveis que estas cifras possam parecer, elas correspondem a uma teoria sobre a origem do Universo aceita em quase todos os meios científicos do mundo – a Teoria do Big Bang (Grande Explosão). De acordo com ela, o Universo teria se originado numa explosão apocalíptica entre 15 e 20 bilhões de anos atrás. A situação que descrevemos refere-se a um instante apenas 10 – 43 segundos após o Big Bang – o algarismo 1 precedido de 42 zeros depois da vírgula – chamado Tempo de Planck. Embora separado do instante inicial por uma fração ínfima de segundo, o Tempo de Planck não se confunde com o momento do Big Bang, porque a matéria energia passou por mudanças dramáticas naqueles pedaços infinitesimais de tempo que se sucedera à origem. O Tempo de Planck constitui o limite até onde chegam atualmente nossos conhecimentos teóricos numa viagem regressiva rumo ao marco zero. A partir daí, ou melhor, antes disso é impossível de ser descrita nos termos dos conhecimentos atuais da Física. Podemos especular que, à medida que nos aproximamos ainda mais desse instante inicial, chamado de estado de singularidade pelos cientistas, o volume do Universo tende a zero enquanto a densidade e a temperatura tendem ao infinito. A Teoria do Big Bang é uma das mais belas realizações intelectuais do século. Para o seu desenvolvimento contribuíram dois ramos do conhecimento que, há apenas algumas décadas pareciam muito distantes: a ciência do macrocosmo, o infinitamente grande, e a ciência do microcosmo, o infinitamente pequeno. A Cosmologia e a Astrofísica, por um lado, e a Física das partículas elementares ou Física subatômica, por outro. Curiosamente, os pais fundadores do Big Bang não eram nem astrônomos nem físicos de partículas. Um deles, Alexander Friedmann (1888-1925), era um meteorologista e matemático russo; o outro, o abade Georges Lemaitre (1894-1966), era um padre e matemático belga.

Trabalhando cada qual por seu lado, como tantas vezes acontece na ciência, Friedmann e Lemaitre chegaram a conclusões muito semelhantes a partir de um desenvolvimento puramente matemático da Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein. Einstein acreditava que a atração gravitacional entre os corpos decorria de uma curvatura do espaço-tempo provocada pela presença da matéria. Friedmann e Lemaitre partiram das complicadas equações de campo gravitacional de Einstein e, como ele, adotaram a hipótese de um Universo, homogêneo no espaço. Mas, ousadamente, descartaram a idéia de Einstein de um Universo imutável no tempo. Isso lhes permitiu chegar, entre 1922 e 1927, a um conjunto de soluções simples para as equações. O Universo que essas soluções descreviam estava em expansão em todas as direções com as galáxias se afastando umas das outras. Essa expansão teria se originado a partir da singularidade, um ponto matemático de densidade infinita.

Em 1929, o astrônomo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953) fez uma descoberta sensacional que trouxe a primeira prova a favor da tese da Grande Explosão. Com o gigantesco telescópio do observatório do monte Wilson, na Califórnia, Hubble descobriu que o espectro da luz proveniente das galáxias distantes apresentava um red-shift – desvio para o vermelho – e que esse desvio era tanto maior quanto mais distante estivesse a galáxia, observada em relação à nossa própria galáxia, a Via Láctea. A explicação de Hubble era de que este fenômeno se devia ao efeito Dopler, bastante conhecido pelos físicos desde o século passado. A conclusão ficava evidente. Se a luz desviava para o vermelho era porque essas galáxias estavam se afastando de nós, e se esse desvio era tanto maior quanto mais longe estivesse a galáxia, isso significava que a velocidade de afastamento crescia com a distância. Para um astrônomo situado numa galáxia distante, também a luz emitida pela Via Láctea apresentaria um desvio para o vermelho. Pois é o Universo como um todo que está em expansão. Ora, se tudo está se afastando no Universo, é possível imaginar uma época remotíssima em que tudo estivesse extremamente próximo. Essa seria a época do Big Bang. Quando isso pode ter ocorrido? O termo que relaciona a velocidade de afastamento ou recessão das galáxias com a distância é conhecido como constante de Hubble. O tempo desde o início da expansão, calculado a partir da constante, dá algo entre 15 e 20 bilhões de anos. A descoberta de Hubble trouxe um poderoso argumento a favor do Big Bang. Não foi, porém, um argumento conclusivo. Tanto assim que, no final dos anos 40, houve quem propusesse um modelo alternativo, a Teoria do Estado Estacionário: em 1964, porém uma descoberta puramente acidental iria representar um golpe demolidor nesse modelo rival.

Dois radiastrônomos, o germano-americano Arno Penzias e o norte-americano Robert Wilson, trabalhando com uma gigantesca antena de sete metros da Bell Telephone dos Estados Unidos descobriram um fraquíssimo ruído de rádio que vinha de todas as direções do céu ao mesmo tempo. Ao longo dos meses, embora 05 movimentos de rotação e translação da Terra voltassem à antena para todas as regiões do firmamento. O sinal mantinha sua intrigante regularidade. Finalmente, Penzias e Wilson tomaram conhecimento de que na prestigiosa Universidade de Princeton um grupo de físicos liderados por Robert Dicke havia deduzido teoricamente a existência de uma fraquíssima radiação de fundo, que deveria preencher uniformemente o espaço. Seria uma espécie de resíduo fóssil da superescaldante sopa cósmica de matéria e energia que, pela Teoria do Big Bang, constituía o Universo pouco tempo depois da Grande Explosão. Com a expansão do Universo, a densidade da energia teria diminuído progressivamente, o que provocou um resfriamento – pelo mesmo motivo que um gás, ao se expandir, resfria, até chegar a uma temperatura de aproximadamente três graus Kelvin, pouco acima do zero absoluto.

Em condições normais, o átomo é formado por três partículas elementares: próton, elétron e nêutron. Delas porém, talvez apenas o elétron possa ser considerado realmente elementar; o próton e o nêutron seriam constituídos de partículas ainda menores – os quarks. Se fosse possível empreender uma viagem de volta à origem do Universo, quando se chegasse à cerca de 300 mil anos depois do Big Bang, as temperaturas já seriam tão altas que romperiam as estruturas dos átomos, arrancando os elétrons de suas nuvens em torno dos núcleos atômicos. Ao se ultrapassar, nessa contagem regressiva, o terceiro minuto depois do Big Bang, os próprios núcleos começariam a se desintegrar, liberando os prótons e os nêutrons neles aprisionados. Na marca de um milionésimo de segundo depois do Big Bang, até os prótons e nêutrons seriam fragmentados nos quarks que os constituem. Essa viagem de volta à origem termina por enquanto no Tempo de Planck, localizado, como vimos, apenas dez milionésimos de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de segundo depois do Big Bang. Os físicos especulam, porém, que, quando seu arsenal teórico permitir ultrapassar a barreira do Tempo de Planck, talvez se encontre um Universo de insuperável simplicidade. Toda a matéria se apresentaria sob a forma de um único tipo de partícula e as quatro forças existentes no mundo atual – a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear forte e a nuclear fraca – estariam unificadas num mesmo tipo de força. A própria distinção entre partícula e força provavelmente não teria qualquer significado. Isso por ora é uma simples suposição. Mas a ciência tem dado passos concretos para verificar sua validade. A unificação entre a força eletromagnética e nuclear fraca, proposta teoricamente nos anos 60 pelos norte-americanos Steven Weinberg e Sheldon Lee Glashow e pelo paquistanês Abdus Salam – os três ganhadores do prêmio Nobel de Física de 1979 – foi confirmada em 1983, com a descoberta das partículas que transportam a força nuclear fraca, previstas pela teoria da unificação.

Essa descoberta, que deu ao italiano Carlo Rubbia o Nobel de Física de 1984, foi obtida no gigantesco acelerador de partículas da Organização Européia de Pesquisas Nucleares (CERN), localizada em Genebra, Suíça, e envolveu um nível de energia igual ao que poderia ser encontrado no Universo primitivo dez bilionésimos de segundo depois do Big Bang. Assim, a teoria e a experimentação vão nos aproximando cada vez mais da origem do Universo. Nessa escalada do conhecimento, o zero é o limite.

Fonte

ARANTES, José Tadeu. Big bang, o universo começou com uma grande explosão. Disponível em: . Acesso em: 08 set. 2006.

Tupinambá

Tupinambá

A Criação do Mundo

Monã criara o céu, a terra os pássaros e outros animais. A terra era uma planície sem montanhas nem mares, pois tudo isso surgiria depois.

Os povos viviam em paz, gozando os benefícios da obra do criador; mas com o tempo, os homens se entregaram a tais desatinos que começaram a desprezar o próprio Monã, que residia entre eles.

Ofendido, Monã se afastou dos homens e enviou à terra o fogo celeste que destruiu todos os seus viventes e revolucionou a crosta terráquea, formando montanhas e vales. No caos, salvou-se apenas Irin-Majé que, transportado para o céu, aplacou as iras de Monã; este se compadeceu dos homens e derramou na terra copiosas chuvas que extinguiram o fogo, criando os rios e outras águas. O mar ainda hoje conserva a salinidade produzidas pela combustão das rochas.

Irin-Majé convencera a Monã de que nada lhe serviria viver sozinho num mundo desabitado. Diante disso, Monã deu uma companheira a Irin-Majé e do novo casal surgiu a atual humanidade. Então nasceu um grande profeta, homem sobrenatural a quem, por suas maravilhosas obras, foi dado o nome de Maire-Monã. Este, graças às mesmas metamorfoses e os mesmos poderes mágicos de Monã, de quem era servidor, encheu o mundo de animais diferentes para cada região.

No entanto, apesar de tantas dádivas, logo depois os homens recaíram na integração; chegaram mesmo a pensar em aniquilar seu benfeitor, pois Maire-Monã, com o seu poder de transformar gente em bicho, trazia os homens em desassossego. Para liquidá-lo, reuniram-se todos em certo local e ofereceram a Maire-Monã uma festa à qual o grande caraíba não tardou em comparecer, embora suspeitando das intenções de tal convite.

Lá chegando, os homenageantes introduziram-no a transpor, sem queimar-se, três grandes fogueiras. O caraíba venceu a primeira prova. Mas ao saltar a segunda foi consumido pelo fogo. Sua cabeça, porém, explodiu, chegou até o céu, originando os raios e trovões, que são os símbolos de Tupã. Veio o dilúvio universal. E logo Maire-Monã subiu às nuvens e transformou-se em luminosas estrelas.

Para os Tupinambá, esse Maire-Monã era um anacoreta ou solitário, embora vivesse rodeado de discípulos ansiosos por suas palavras e ensinamentos. Tinha poderes iluminados; dominava as forças naturais e conhecia profundamente os exorcismos mágico-religiosos.

Ele introduziu entre os Tupinambá a cultura da mandioca e diversos costumes como a tonsurra, a epilação e os ritos dos nascimentos. Desaconselhou-os de comer os animais pesados e lerdos recomendado, ao contrário, a carne dos animais ágeis e valentes. Ao mesmo tempo, ensinou-os a distinguir entre os vegetais daninhos e úteis. E disseminou o uso do fogo que, até então, era conservado nas espáduas da preguiça.

Contaram os Tupinambá que, sobrevivendo uma longa estiagem, Maire-Monã tomara, por compaixão, a forma de uma criança. Bastava bater nela para caírem chuvas que regavam as plantas esturricadas.

Entre os descendentes de Maire-Monã houve um que se chamou Simmai, o qual teve dois filhos: Tamendonare e Ariconte, que eram inimigos. O primeiro era um pacífico pai de família, sempre entregue a sua lavoura; o outro, porém, só cuidava da guerra e sonhava reduzir à servidão os seus companheiros.

Certo dia, Ariconte, cheio de arrogância, atirou na choça de Tamendonare um troféu de guerra e este, repelindo o agravo, pôs-se a golpear o chão, fazendo joviar uma impetuosa torrente. Quando o dilúvio provocado pelo jorro ameaçava cobrir a face da terra, subiram ambos, com suas esposas, ao cimo das árvores. Tamendonare escolheu a pindoba e Ariconte o jenipapeiro. Desses dois casais sobreviventes do dilúvio, provieram, respectivamente, os Tupinambá e os Temiminó.

Fonte

CASCUDO, Câmara. Tupinambá: a criação do mundo. In: _____. Antologia do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Vozes, 1963. p. 34.

A matéria e a forma

A matéria e a forma

Aristóteles, trazendo as idéias ao mundo das coisas, quer dar-lhes força genética ou geradora. Por isso estabelece em cada coisa uma distinção fundamental. Do mesmo modo que, na análise da coisa distingue a substância, a essência e o acidente, assim distingue agora na coisa esses dois elementos: a forma e a matéria.

A que chama Aristóteles matéria? Aristóteles chama matéria a um conceito que não tem nada a ver com aquilo que em física chamamos hoje matéria. Matéria, para ele, é simplesmente aquilo de que é feito algo.

E forma? Que significa a forma para Aristóteles? A palavra forma toma-a Aristóteles da geometria. A influência da geometria foi enorme, e Aristóteles entendeu por forma, primeira e principalmente, a figura dos corpos, a forma no sentido mais vulgar da palavra, a forma que um corpo tem, a forma como terminação-limite da realidade corpórea, vista de todos os pontos; a forma no sentido da estatuária, no sentido da escultura; isso foi o que Aristóteles entendeu primeiro e fundamentalmente por forma.

Mas sobre esse acepção e sentido da palavra, por forma entendeu também Aristóteles – e sem contradição alguma – aquilo que faz que a coisa seja o que é, aquilo que reúne os elementos materiais, no sentido amplo referido antes, entrando também o imaterial. Aquilo que faz entrar os elementos materiais num conjunto, que lhes confere unidade e sentido, isto é que chama Aristóteles forma.

A forma, pois, se confunde com o conjunto dos caracteres essenciais que fazem com que as coisas sejam aquilo que são; confunde-se com a essência. A forma, em Aristóteles, é a essência, aquilo que faz com que a coisa seja o que é.

Pois bem: essas formas das coisas não são para Aristóteles formas ao acaso, não são formas casuais, não foram trazidas pelo ir e vir das causas eficientes na natureza. Longe do pensamento de Aristóteles, o mais longe possível, está nossa idéia de física moderna de que aquilo que cada coisa fisicamente é, seja o resultado de uma série de causas puramente físicas, eficientes, mecânicas, que, sucedendo-se umas as outras, chegaram a ser necessariamente aquilo que uma coisa neste momento é. Nada está mais longe do pensamento aristotélico do que isso.

Pelo contrário, para Aristóteles cada coisa tem a forma que deve ter, quer dizer, a forma que define a coisa. Por conseguinte, para Aristóteles a forma de algo é aquilo que dá sentido a esse algo; esse sentido é a finalidade, é o telos, palavra grega que significa fim: daí vem esta palavra que se emprega muito em filosofia e que é teologia: teoria dos fins, o ponto de vista do qual apreciamos e definimos as coisas, não enquanto são causas mecanicamente, mas enquanto estão dispostas para a realização de um fim. Pois bem: para Aristóteles a definição de uma coisa contém sua finalidade, e a forma ou conjunto das notas essenciais imprimem nessa coisa um sentido que é aquilo para que serve.

Desta maneira está já armado Aristóteles para responder à pergunta acerca da gênese ou produção das coisas. Se a matéria e a forma são os ingredientes necessários para o advento da coisa, então este advento em que consiste? Consiste em que à matéria informe, sem forma, se acrescenta, se agrega, se sintetiza com ela, a forma. E a forma, o que é? A forma é a série das notas essenciais que fazem da coisa aquilo que é e lhe dão sentido, telos, finalidade.

Pois bem: que é isto se não a idéia platônica que vimos descer do céu para pousar sobre a substância e formar a totalidade e integridade da coisa real? Pois a essa idéia não dá Aristóteles tão-somente a função de definir a coisa, mas também a função de conseguir o advento da coisa. A coisa advém a ser aquilo que é porque sua matéria é informada, é plasmada, recebe forma, e unia forma que é a que lhe dá sentido e finalidade. Isto imprime uma capacidade dinâmica, uma capacidade produtiva às idéias trazidas aqui ao mundo sensível na figura de forma e sob o aspecto de forma. Nessas idéias está para Aristóteles o germe, o princípio informativo, criador, produtivo, da realidade de cada coisa.

Em que implica isto? Implica evidentemente em que cada coisa é aquilo que é porque foi feita inteligentemente. Se a forma da coisa é aquilo que confere à coisa sua inteligibilidade, seu sentido, seu telos, seu fim, não há mais remédio que admitir que cada coisa foi feita do mesmo modo como o escultor faz a estátua, como o marceneiro faz a mesa, como o ferreiro faz a ferradura. Tiveram que ser feitas todas as coisas no universo, todas as realidades existenciais por uma causa inteligente, que pensou o telos, a forma, e que imprimiu a forma, o fim, a essência definitória na matéria.

Fonte

MORENTE, Manuel Garcia. A matéria e a forma. In: _____. Fundamentos de filosofia: lições preliminares. São Paulo: Mestre Jou, 1978. p. 97-8.

Gênesis

Gênesis

A Criação

No princípio Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam os abismos e o espírito de Deus pairava sobre as águas.

Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia.

Deus disse: faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele uma das outras. Deus fez o firmamento e separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. Assim se fez. Deus chamou o firmamento CÉUS. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o segundo dia.

Deus disse: que as águas que estão debaixo dos céus se ajuntem num mesmo lugar, e apareça o elemento árido. E assim se fez. Deus chamou ao elemento árido de TERRA, e ao ajuntamento das águas MAR. E Deus viu que isso era bom. Deus disse: produza a terra plantas, ervas que contenham sementes e árvores frutíferas que dêem frutos segundo a sua espécie e o fruto contenha sua semente. E assim foi feito. A terra produziu plantas, ervas que contêm sementes segundo sua espécie, e árvores que produzem frutos segundo a sua espécie, contendo o fruto a sua semente. E Deus viu que isso era bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o terceiro dia.

Deus disse: façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos; e resplandeçam no firmamento dos céus para iluminar a terra. E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite e fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para que iluminassem a terra, presidissem ao dia e à noite, e separassem a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quarto dia.

Deus disse: pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento dos céus. Deus criou os monstros marinhos e toda a multidão de seres vivos que enchem as águas, segundo a sua espécie, e todas as aves segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom. E Deus os abençoou: frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quinto dia.

Deus disse: produza a terra seres vivos segundo a sua espécie animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo a sua espécie, os animais domésticos igualmente, e da mesma forma todos os animais, que se arrastam sobre a terra. E Deus viu que isso era bom. Então Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra. Deus criou o homem à sua espécie; criou-o a imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre os animais que se arrastam sobre a terra. Deus disse: eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirva de alimentos. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, tudo que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento. E assim se fez. Deus completou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o sexto dia.

Assim foram acabados os céus, a terra e todo o seu exército. Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse repousará de toda a obra da criação.

Tal é a história da criação dos céus e da terra.

Fonte

BÍBLIA Sagrada. Gênesis. Tradução de: Monges de Maredsosus. São Paulo: Ave Maria, 1989. p. 49-50.

Questões tecnológicas na sociedade do (des)conhecimento

Questões tecnológicas na sociedade do (des)conhecimento

A vontade de dominar o conhecimento acompanha a trajetória humana. Nossos ancestrais bíblicos foram expulsos de seu hábitat original justamente pela atração fatal que lhes causou a aquisição do conhecimento – da’at tov vará –, materializado em uma particular árvore do Jardim do Éden.

Em parcela expressiva de seus diálogos, Platão buscava compreender a natureza do conhecimento – episteme. A fé hindu percebia o conhecimento – jnana – como uma das três vias de acesso à divindade. A presença do conhecimento na história humana vai mais além das idéias e crenças.

Na sua obra sobre a riqueza e a pobreza das nações, David Landes, professor emérito de história e economia da Universidade de Harvard, mostra de forma convincente que, nos últimos 600 anos, é a existência de uma sociedade aberta focalizada no trabalho e no conhecimento que explica porque alguns países ficaram muito mais ricos do que se poderia esperar a partir de suas dimensões ou de seu poder militar.

Hoje percebemos com clareza que o conhecimento constitui o eixo estruturante do desempenho de sociedades, regiões e organizações. Difundem-se expressões que incorporam esse termo – sociedade do conhecimento, economia baseada em conhecimento, redes de conhecimento e trabalhadores do conhecimento – também chamados analistas simbólicos –, entre outras. Elas refletem a constatação de que a gestão competente do conhecimento é determinante da capacidade das sociedades, regiões, organizações e pessoas lidarem com o ambiente em acelerada transformação e crescente complexidade que caracteriza a passagem do milênio – pelo calendário ocidental.

Tecnologia, conhecimento e desenvolvimento

Aprimorar as competências de gestão do conhecimento é vital para os países que aspiram a acelerar o ritmo e aumentar a eqüidade do seu processo de desenvolvimento sustentável. O Relatório do Desenvolvimento Mundial de 1998-99 do Banco Mundial, que tem o sugestivo título de Conhecimento para o Desenvolvimento, é incisivo em indicar que países pobres – e pessoas pobres – diferem dos ricos não apenas por disporem de menos capital, mas também por terem menos conhecimentos.

São identificadas ali duas classes de conhecimento e dois tipos de problemas que são críticos para os países em desenvolvimento. A primeira classe abrange os conhecimentos tecnológicos essenciais para a funcionalidade das sociedades contemporâneas, tais como nutrição, engenharia de software e administração. Ocorre que os conhecimentos dessa classe são assimetricamente distribuídos entre as nações e entre os estratos sócio-econômicos em cada nação.

Essa assimetria tende a crescer. Em parte, porque a fluidez com que as tecnologias atravessavam fronteiras tem-se reduzido com a mundialização. Empresas de países centrais já não estão mais dispostas a repassar o seu melhor conhecimento para as empresas dos países periféricos, mesmo que por um preço razoável, pois consideram tais países como seu mercado potencial direto.

Nesse contexto, o complexo tema da proteção do trabalho intelectual passou a ser tratado de forma cada vez mais reducionista, com viés predominantemente comercial. Situação que é agravada pela subordinação dos contenciosos às pressões de interesses empresariais e nacionais hegemônicos, pouco sensíveis até mesmo à miséria humana, como se percebe no momentoso caso do licenciamento internacional de tecnologias protegidas para a produção do coquetel anti-AIDS.

A mundialização vem contribuindo, portanto, para uma distribuição desequilibrada dos conhecimentos tecnológicos. No caso das tecnologias de informação, os fatores lingüístico e cultural decorrentes da concentração de interesses e competências em um só país se somam a diversos outros, causando um alargamento paulatino da ‘brecha digital’.

A segunda categoria focaliza os conhecimentos sobre atributos, tais como a qualidade de um produto – bem ou serviço –, a diligência de um(a) trabalhador(a) ou a credibilidade de uma organização. São esses problemas de informação, cuja resolução envolve mecanismos institucionais idôneos para a disponibilização de serviços tecnológicos, tais como os de normalização, certificação e avaliação.

Tecnologia, conhecimento e desconhecimento

O conhecimento tem, como contraponto, múltiplas categorias de desconhecimento. Há, evidentemente, o desconhecimento por ignorância, que afeta parcelas significativas das populações em quase todos os países. Esse é reparável, em grande parte, pela melhoria do acesso à informação e ao desenvolvimento de competências nos códigos – lingüísticos, telemáticos e operativos – que permitem localizar as fontes, bem como qualificar e tratar a informação. Requer-se, para tanto, acessibilidade melhorada ao ensino formal e informal de boa qualidade – tanto para crianças e jovens como para pessoas adultas, no conceito de aprendizagem permanente.

A convergência das novas tecnologias multimídia e telemática, se adequadamente aplicadas à mediação do processo de ensino-aprendizagem, certamente pode contribuir para a universalização das oportunidades de crescimento da bagagem intelectual requerida para os cidadãos e cidadãs que pretendem adentrar e se manter na sociedade do conhecimento.

Todavia, há outras categorias de desconhecimento, igualmente preocupantes, capazes de afetar mesmo as pessoas que tiveram acesso privilegiado ao sistema educacional, cursando instituições de ensino superior diferenciadas. Uma dessas categorias de desconhecimento está relacionada menos à falta de informação ou de tecnologia do que à sensibilidade adormecida das elites.

É o caso do desafio da inclusão social. Há informações detalhadas sobre as agruras de outros seres humanos, inclusive em nosso meio próximo, que moram em sub-habitações, são fugitivos de regiões conflagradas ou apresentam algum tipo de desvantagem de condições de sobrevivência no modelo sócio-econômico baseado na competitividade.

As políticas e práticas prevalecentes fazem com que os conhecimentos tecnológicos sejam então direcionados pelos governos e pelos segmentos privilegiados da sociedade do desconhecimento menos para atenuar as causas e conseqüências da exclusão do que para aumentar a altura de muros – concretos ou virtuais – e incrementar a sofisticação de sistemas de controle de acesso nas fronteiras, residências, locais de trabalho e centros de cultura e lazer. Restaura-se, em versão pós-moderna invertida – os excluídos e excluídas ficam do lado de fora –, a figura histórica do gueto, que marcou por séculos a paisagem urbana européia moderna.

Há que reconhecer, em contrapartida, a emergência e disseminação do Terceiro Setor, que congrega as entidades de caráter privado que desenvolvem trabalhos de utilidade pública. Têm sido elas capazes de, crescentemente, mobilizar conhecimentos tecnológicos, levantar recursos financeiros e canalizar as energias criativas de pessoas e organizações dispostas a participar ativamente em processos que visam a inclusão social dos segmentos excluídos por fatores tais como gênero, idade, cor, etnia, deficiência, condição econômica e convicções religiosas ou políticas.

Outra categoria de desconhecimento está associada ao não reconhecimento da natureza do empreendimento científico-tecnológico por pessoas educadas segundo seus princípios. Esse desconhecimento se manifesta de formas antípodas, ambas com forte carga ideológica. Por um lado, ocorre o endeusamento da ciência e tecnologia, em que se constrói uma imagem de que elas são capazes de prover os conhecimentos capazes, não apenas de acabar com os males da humanidade como, também, de oferecer uma antecipação dos prazeres do paraíso celestial. São estes materializados nos centros de compras virtuais, em que se pode adquirir de tudo – inclusive serviços eróticos, drogas e informações sobre como construir bombas mortíferas – a qualquer momento – no jargão publicitário, ‘24x365’ – e de qualquer lugar. Naturalmente é desejável, para satisfazer os desejos e pulsões, possuir pelo menos um cartão de crédito válido.

Sacerdotes do estamento científico-tecnológico desconhecem, muitas vezes, a variedade e intensidade de efeitos deletérios do seu conhecimento. Entre eles está a redução da biodiversidade ambiental e cultural – esta simbolizada pela extinção de centenas de idiomas, incapazes de se manter por falta de densidade populacional, num ambiente cada vez mais conectado pela teia mundial – conhecida pelo acrônimo em inglês WWW – e no qual as próprias entidades internacionais deram legitimidade a apenas algumas poucas línguas. Despontam, ainda no plano cósmico, os crimes contra a humanidade, de que é símbolo o genocídio nazista, legitimado por cientistas e viabilizado pelo uso de tecnologias de logística – ou seja, de transporte mais conhecimento – avançadas para a época.

No plano microcósmico, ocorre o desconhecimento generalizado das rupturas psicológicas de jovens e adultos, incapazes de lidar com a elevada taxa de mudança introduzida pela mundialização nos espaços econômico, social e cultural. Essa incapacidade, agravada pela insensibilidade dos arautos da modernidade aos saberes e práticas tradicionais, levam às drogas, ao terrorismo e, não com pouca freqüência, ao suicídio.

O contraponto à santificação retromencionada é a demonização do conhecimento científico-tecnológico no mundo ocidental em pleno século XXI. Ela é exemplificada pela recente incursão, amplamente divulgada, que destruiu, pela força bruta, estações de pesquisa biotecnológica vegetal no Brasil. Foi ela comandada por um histriônico cidadão e morador de país rico que, curiosamente, é filho de um cientista destacado, que contribuiu para colocar a genômica brasileira na vanguarda internacional.

A dramaturgia neoludita foi estimulada pela condição do comandante da invasão ao laboratório científico a céu aberto de ter sido convidado especial do Fórum Mundial de Desenvolvimento Social. Esse evento foi co-patrocinado por um jornal, publicado em seu próprio país, que se especializa em assuntos das relações internacionais.

Verifica-se nesse episódio um desconhecimento aparente tanto da natureza do processo de gestação do conhecimento científico e da sua necessária refutabilidade, como do casamento de interesses entre o bloqueio ao avanço da ciência e o protecionismo do setor agrícola de países ricos.

Essa crítica não reduz a legitimidade do questionamento do investimento que, nesse caso, o empreendimento científico-tecnológico faz não para promover mas sim para evitar a mudança. Tal esforço é polarizado por uma grande multinacional, que pretende disseminar plantas geneticamente modificadas, que lhe permita preservar o mercado para seus produtos pesticidas tradicionais.

Tecnologia, conhecimento e informação

A importância do conhecimento na sociedade contemporânea tem levado governos de diversos países a torná-lo um dos eixo diretores de sua visão de desenvolvimento. Esse é o caso do Brasil, que incluiu Informação e Conhecimento como uma das seis áreas que abrigam os programas finalísticos do seu plano estratégico plurianual 2000-2003, cognominado Avança Brasil.

A condição necessária, ainda que não suficiente, para a constituição de uma sociedade do conhecimento é a existência de uma infra-estrutura informacional ampla e de boa qualidade. Essa percepção levou o Governo do Brasil a criar, no âmbito de seu Ministério de Ciência e Tecnologia, o Programa Sociedade da Informação - SocInfo. Ele constitui um conjunto de iniciativas coordenadas das esferas governamental federal, estadual e municipal, junto com a iniciativa privada, para viabilizar um novo estágio de evolução da Internet e suas aplicações, tanto na capacitação de pessoal para pesquisa e desenvolvimento quanto na garantia de serviços avançados de comunicação e informação.

Com investimentos previstos de cerca de 2 bilhões de euros em quatro anos, tem por meta criar as bases para que aumente substancialmente a participação da economia da informação no Produto Interno Bruto, estimada no início do Programa em 10%. Pretende, outrossim, disseminar o uso do computador em todo o território nacional, contribuindo para reduzir as desigualdades sociais e regionais.

O Programa Sociedade da Informação brasileiro está estruturado em oito linhas de ação e em nove áreas de atuação. As linhas de ação indicam a direção dos projetos: pesquisa e desenvolvimento em tecnologias-chave; prototipagem de aplicações estratégicas; implantação de infra-estrutura avançada para pesquisa e ensino; fomento a informações e conteúdos; fomento a novos empreendimentos; apoio à difusão tecnológica; apoio a aplicações sociais; e governança no mundo eletrônico.

Já as áreas de atuação estabelecem um conjunto de objetivos globais, com prioridade para ciência e tecnologia, educação e cultura, considerados indutores dos demais. Os objetivos estão resumidos a seguir.

1 – Ciência e tecnologia – colaboração e condução de experimentos cooperativos e disseminação de informação científica e tecnológica.

2 – Educação – educação à distância de qualidade e bibliotecas temáticas digitais.

3 – Cultura – criação e difusão cultural, com ênfase nas identidades locais, seu fomento e preservação.

4 – Saúde – protótipos de serviços de referência em atendimento, telemedicina e de informação em saúde.

5 – Aplicações sociais: mundo virtual como habilitador de competências e participação social.

6 – Comércio eletrônico: ambientes de comércio eletrônico e transações seguras pela rede.

7 – Informação e mídia: meios, processos e padrões para publicação e interação; propriedade intelectual e negócios do conhecimento.

8 – Atividades de governo: integração e maximização de ações públicas para a cidadania; transparência das ações e melhoria da qualidade dos serviços.

9 – Educação para a sociedade da informação: treinamento e formação tecnológica e popularização da cultura digital.

Outro marco para a democratização das oportunidades na base informacional requerida pela sociedade do conhecimento no Brasil é a instituição, no segundo semestre de 2000, do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações – FUST. Será ele alimentado por diversas fontes, principalmente por uma contribuição de 1% sobre a receita operacional bruta decorrente da prestação de serviços de telecomunicações nos regimes público e privado. Disporá, assim, de importante volume regular de recursos, que serão aplicados em programas, projetos ou atividades que contemplem, entre outros, os objetivos a seguir.

1 – Implantação de acessos individuais para prestação do serviço telefônico e para utilização de serviços de redes digitais de informação destinadas ao acesso público, inclusive da Internet, em condições favorecidas; elas focalizarão estabelecimentos de ensino, bibliotecas e instituições de saúde, beneficiando em percentuais maiores os estabelecimentos freqüentados por população carente.

2 – Instalação de redes de alta velocidade, destinadas ao intercâmbio de sinais e à implantação de serviços de teleconferência entre estabelecimentos de ensino e bibliotecas.

3 – Fornecimento de acessos individuais e equipamentos de interface a deficientes carentes e a instituições de assistência a deficientes.

Conhecimento, desconhecimento e universidade

A possibilidade de desconhecimento pelas elites formadas nas universidades é apontada por Jacques Marcovitch, atual Reitor da Universidade de São Paulo – USP.

É corriqueiro ver o aluno, enquanto universitário, extremamente solidário com os excluídos, para depois tornar-se dirigente de uma grande empresa e agir de forma oposta. Ali, vivendo nova cultura e desvinculado da cultura da universidade, ele pode passar a ser um reforçador da exclusão. A questão da exclusão e a questão da empregabilidade serão facilitadas quando se entender como comunidade universitária a comunidade alargada, incluindo os ex-alunos, e dela fazendo um espaço formulador de alternativas. O ex-aluno, articulado com aqueles que vivem a universidade de hoje, pode trazer algo de extremamente benéfico para a reflexão em torno desse tema.

A universidade brasileira dispõe de competência instalada para realizar uma ampla gama de programas mobilizadores em torno das questões sociais. A USP tem realizado iniciativas nessa direção. Cabe destacar as ações que resultaram na elaboração de um documento sobre as condições de vida do brasileiro afro-descendente, hoje incorporado ao projeto nacional em fase de estudos pelo governo da União.

A responsabilidade pelo benefício social do conhecimento, contemplada na dimensão da extensão universitária, que integra a sua missão tríplice, está expressa no conceito de universidade conectada e explícito nos textos de dirigentes das universidades públicas de pesquisa, tais como os seguintes...

A exclusão social é o maior problema da sociedade moderna, principalmente em nosso país. Não há como a universidade furtar-se ao debate dessa questão. (...) Cristovam Buarque, em seu livro A aventura da universidade, aponta várias questões cruciais da vida acadêmica. (...) O livro do ex-reitor da Universidade Nacional de Brasília é um referencial para a discussão de alguns pontos, entre os quais, por exemplo, o acesso ao ensino superior. Ele fixa, nessa direção, este conceito: ‘O que faz a universidade elitista não é o fato de que alguns pobres não terão filhos médicos, mas o fato de que os pobres não terão médicos para seus filhos’. (...) Na questão da exclusão social, uma primeira mensagem que a universidade tem que deixar muito clara é a do compromisso social amplo e permanente. (...) a universidade tem, simultaneamente, um compromisso com a coesão social e outro com a excelência.

Para atestar a consistência da prática da Universidade com essa mensagem de compromisso social, encontra-se disponível na Internet um catálogo denominado A USP frente ao desafio da inclusão social, expondo centenas de iniciativas regulares e permanentes nesse sentido.

Tecnologia, conhecimento e cooperação

O caminho do conhecimento não é trivial. A sabedoria hinduísta o apresenta com três portais – termo que ganha novo significado no ambiente contemporâneo da Internet –, pelos quais se tem que ingressar e caminhar. Cada um deles possui um guardião, uma divindade de aspecto duplo – um diabólico e outro angelical – simbolizando a natureza similar das características dificultadoras e facilitadoras do desenvolvimento pessoal.

Em um outro portal, o do templo de Apolo em Delfos, local simbólico da prospecção sobre o porvir, encontra-se uma frase grega que indica um pré-requisito específico para acesso ao conhecimento: conhece-te a ti mesmo.

A questão de como realizar o auto-conhecimento ali preconizado foi elaborada, séculos depois, pelo filósofo judeu Martin Buber: não há EU em si, mas apenas o EU da palavra-princípio EU-TU e o EU da palavra-princípio EU-ISSO. Esta diz respeito ao mundo como experiência, enquanto a primeira fundamenta o mundo da relação, da reciprocidade. A ambivalência dos guardiães dos portais hinduístas e, em particular, a reflexão de Buber nos permitem ter uma percepção importante sobre a natureza da bissecção conhecimento/desconhecimento, que perpassa o presente trabalho.

O conhecimento é ensejado pelo estabelecimento de relações de cooperação entre entes – pessoas ou organizações – que se reconhecem distintos, mas que percebem o potencial de desenvolvimento existente numa relação marcada pela reciprocidade. É esta a base para alguns dos arranjos mais frutíferos na sociedade do conhecimento: as comunidades de aprendizagem, as comunidades de praticantes de uma determinada tecnologia, as relações entre os atores dos sistemas nacional e local de inovação tecnológica – tais como a cooperação empresa-universidade-governo – e a cooperação científica, técnica e tecnológica internacional.

O desconhecimento, por sua vez, resulta do tratamento dos interlocutores não como potenciais parceiros, mas como objetos a serem explorados oportunisticamente, a partir dos quais se pode obter vantagens unilaterais. A cooperação internacional ‘de fachada’ é uma ilustração dessa relação espúria.

O diálogo franco entre entes informados e cônscios de sua identidade é, por conseguinte, a chave para uma cooperação que permita compartilhar, com benefícios recíprocos, os conhecimentos estruturados e tácitos de cada ser, nação e cultura.

Fonte

PLONSKI, Guilherme Ary. Questões tecnológicas na sociedade do (des)conhecimento. Disponível em: . Acesso em: 07 out. 2005.