quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sensopercepção

Os texto abaixo, sobre Sensopercepção, é do professor Eunofre Marques, retirado de suas brilhantes páginas na internet. Veja um trecho:

"... Essa atividade nós chamamos de percepção objetiva, isto é, a percepção do mundo objetivo, incluindo o corpo. Esta percepção é sempre e unicamente intermediada pela sensorialidade, que a possibilita porém também a limita. Não se trata apenas da apreensão de informações sensorialmente determinadas, que é o que ocorre na neuropercepção. Ela é uma atividade intrinsecamente psíquica, que se vale das informações fornecidas pela neuropercepção mas que vai além, que integra as imagens e as representa na consciência. A esta percepção do mundo nós damos o nome de sensopercepção. Sensopercepção é, pois, a atividade de incorporar o mundo objetivo ao mundo interno, é trazer o mundo físico para o mundo mental, é colocar-nos em contato direto, intrapsíquico, com o que pudemos apreender do mundo que nos cerca, ao qual não temos acesso direto.

Com a sensopercepção podemos construir em nosso mundo próprio todo um modelo nosso do universo, sem as limitações físicas deste, mas submetido a essas limitações, isto é, podemos analisar, sintetizar, desmembrar, unificar, como se estivéssemos manipulando o mundo objetivo, de um modo que, diretamente nele, não seria possível. A sensopercepção nos permite, assim, uma nova conquista do mundo, além das suas próprias possibilidades. Se ela não fosse razoavelmente fiel ao mundo externo, isto é, se as suas referências básicas não viessem da realidade objetiva, o nosso mundo interno seria uma imaginação delirante e irreal. Exatamente por se tratar de uma atividade muito confiável, apesar das suas limitações, podemos nos valer dela para lidar com a realidade fora da realidade e, daí, descobrirmos como tornar real o resultado do nosso trabalho.

Fazemos questão de ressaltar essa propriedade exclusivamente intrapsíquica da sensopercepção e as possibilidades que ela nos apresenta justamente para distingui-la de uma simples reprodução ou representação da realidade ou uma mera atividade sensorial. Na percepção do mundo temos, na verdade, três níveis: o nível sensorial, onde obtemos informações possibilitadas pelas limitações da cada sensorialidade, o nível neuropsíquico, que nos fornece informações sem conteúdo, e o nível sensoperceptivo, que nos abre todas as potencialidades que o conhecimento da realidade pode oferecer. A primeira é um campo puro da neurologia, a segunda da neuropsicologia e a terceira é restrita à psicologia (médica) e à psicopatologia. O fato de representarem campos profissionais completamente distintos é também um dado que revela o quanto tais atividades se diferenciam entre si.
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Sobre a influência do estado emocional na intensidade das percepções, Eunofre Marques é muito didático. Veja um trecho de sua página:

"... O grau de interesse pelo objeto que esteja no foco da consciência pode aumentar ou reduzir a acuidade perceptual para ele. Isto também vale para os objetos a ele relacionados e a todo o ambiente possível no campo perceptual. Se eu estiver apenas interessado num único objeto, no livro que estou lendo, por exemplo, eu posso "apagar" todos os registros perceptuais de todos os sentidos, só permanecendo o foco visual de meu interesse. Se estou num ambiente novo, onde tudo me interessa, o meu campo perceptual se amplia até os limites possíveis da sensorialidade, com um grau de acuidade muitas vezes semelhante àquele que eu costumo ter apenas no foco da consciência. Aqui se trata, na verdade, de uma alteração intencional do grau de lucidez da consciência e da contração ou expansão dos seus foco e campo. Isto quer dizer que o interesse do indivíduo pelo objeto altera a sua acuidade perceptiva via consciência.

Existem estados normais que exacerbam a acuidade perceptiva. Assim, se estou à noite caminhando numa rua estranha de um bairro suspeito, o medo pode tornar a minha acuidade perceptiva muito maior do que aquela que costumo apresentar em condições normais. Tal fenômeno não vem acompanhado de hiperlucidez, isto é, a reação de alerta produzida pelo medo não altera a sensopercepção pela via da consciência, mas de modo direto, primário. Outra condição que pode exacerbar a acuidade perceptiva é o êxtase, um estado afetivo especial que altera as condições da consciência, gerando um estado de hiperlucidez. Este fenômeno é completamente diferente do que ocorre no medo e trataremos dele mais tarde. Se estou muito cansado, a fadiga pode reduzir drasticamente a minha acuidade perceptiva. A fadiga não costuma vir acompanhada de variação da lucidez, indicando que a influência da fadiga na acuidade é direta e primária. A sonolência também reduz a acuidade perceptual. Esta, diferente da anterior, influi na sensopercepção através da variação da lucidez, pois a sonolência é um estado de hipolucidez, isto é, depende do estado da consciência. Existem muitas condições normais que produzem variações da acuidade perceptual para mais ou para menos. Não se tratam de distúrbios da sensopercepção, mas apenas variações das suas condições habituais, sendo, portanto, fenômenos absolutamente normais. As variações no sentido de aumento da acuidade sensoperceptiva são chamadas de hiperestesias e para menos de hipoestesias. Alguns autores guardam esses termos apenas para as variações quantitativas patológicas, outros as usam indiferentemente também para as variações normais.
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Em relação ao desenvolvimento da capacidade cognitiva e simbólica do ser humano,Renato da Silva Queiroz, professor do departamento de antropologia da USP, comenta um livro chamado A Pré-História da Mente, de Steven Mithen, onde destaca o tópico “As origens da arte, da religião e da ciência”

“A mente dos humanos modernos produz conhecimentos e os redireciona para propósitos diversos daqueles aos quais se aplicavam originalmente. Tal capacidade mental requer um cérebro poderoso e multifacetado, organizado de tal modo que os processos cognitivos em seu interior, a despeito de especializados, possam fluir e recombinar-se sem restrições. Disso decorrem a flexibilidade e a criatividade do comportamento humano. O surgimento desse tipo de mente, única entre os seres viventes, é produto de um longo trajeto evolucionário, cuja pormenorizada reconstituição encontra-se neste instigante livro de Steven Mithen, arqueólogo inglês que, para tanto, recorre a saberes da biologia, antropologia e psicologia, entre outras disciplinas científicas.

Todavia é o método arqueológico que o conduz pelas sendas das demonstrações. "Se quiserem conhecer a mente, não procurem apenas psicólogos e filósofos: certifiquem-se de também procurar um arqueólogo", adverte Mithen, enfatizando que a mente humana resulta tanto da nossa história evolutiva quanto dos contextos em que os indivíduos se desenvolvem. A mente dos humanos modernos é fruto do processo de expansão cerebral, conhecido como "encefalização", e do desenvolvimento de inteligências especializadas, cujos conhecimentos, antes nelas aprisionados, se integraram graças ao mecanismo gerenciador exercido pela consciência.

Essas inteligências múltiplas -e o autor propõe a existência de pelo menos quatro delas: social, naturalista, técnica e lingüística-, que se foram desenvolvendo de forma mais ou menos estanque ao longo do processo evolucionário, em resposta a numerosas pressões seletivas, se integraram, finalmente, na transição do Paleolítico Superior ao Médio. Pode-se identificar o período em que se deu tal integração, caracterizada por uma enorme fluidez cognitiva, observando-se as primeiras manifestações de percepção estética traduzidas em obras de arte (figuras esculpidas e pinturas rupestres) e a emergência de representações religiosas.

Escassas são as peças que se oferecem à reconstituição da pré-história da mente humana. Até o aparecimento das primeiras modalidades de escrita, surgidas há uns 5.000 anos, os vestígios que nos foram legados pelos nossos ancestrais nos últimos 2,5 milhões de anos não vão muito além de utensílios de pedra, restos de alimentos, figuras fixadas em pequenas esculturas e pinturas rupestres. Entretanto esse exíguo material, submetido ao rigoroso exame do autor e por ele confrontado com o comportamento de chimpanzés e grupos de caçadores-coletores modernos, conferiu suporte às suas convincentes interpretações. Um dos fundamentos da reconstituição empreendida por Mithen é o princípio da recapitulação, segundo o qual a ontogenia recapitula a filogenia, postulando o autor que se podem vislumbrar nas etapas de desenvolvimento mental da criança as fases da evolução cognitiva dos nossos ancestrais. Nessa medida, tem-se, num primeiro período evolucionário, uma inteligência geral, indiferenciada, incapaz de sustentar a elaboração de padrões complexos de comportamento, inteligência suficiente apenas para a aquisição de condutas relativamente simples, sujeitas a erros freqüentes e dependentes de um ritmo lento de aprendizado. Depois, despontam as inteligências especializadas, cada uma delas tomando conta de um domínio comportamental específico, com o que se amplia a capacidade das operações cognitivas.

Ocorre, porém, que nessa etapa intermediária os conhecimentos pertinentes a cada um dos domínios ainda estão contidos em seus módulos específicos (a imagem é a das lâminas de um canivete suíço), não se verificando, pois, significativo fluxo de informações entre eles. Finalmente, adquire-se a fluidez cognitiva, donde a dramática ampliação das capacidades mentais e a plena configuração da mente do homem moderno -criativa, flexível e imaginativa.

SELEÇÃO NATURAL
O mais importante arquiteto da mente, a seleção natural, processo lento e gradual, desprovido de direção ou de objetivos predeterminados, terminou por favorecer a integração das inteligências múltiplas, dando margem à riqueza dos processos mentais, que se traduzem em metáforas e analogias, e à nossa inesgotável imaginação. Dessa perspectiva, a capacidade simbólica e os estados mentais que se expressam por meio da arte, da religião e da ciência, criações exclusivas do homem moderno, já germinavam nas mentes de nossos ancestrais. Steven Mithen rastreou o percurso da construção dessa mente dotada de fluidez cognitiva, sem a qual os humanos seriam incapazes de construir e representar o ambiente culturalmente complexo que fizeram para si mesmos.

Em seus comportamentos se entranham dimensões práticas e simbólicas, neles interligando-se profundamente a manipulação e a transformação de objetos físicos, coordenadas pela inteligência técnica, a interação com o mundo natural, orientada pela inteligência naturalista, a habilidade de reconhecer indivíduos e inferir os seus estados mentais, favorecida pela inteligência social, e a aquisição e os múltiplos usos da linguagem, possibilitados pela inteligência linguística. O autor data as primeiras formas de expressão artística em aproximadamente 40 mil anos, situando-as no continente europeu e na "explosão criativa" do Paleolítico Superior.

Contudo novas descobertas parecem localizá-las em terras africanas, há uns 80 mil anos. Mesmo estando corretas essas derradeiras estimativas, vê-se que a emergência do homem moderno é bastante recente. Logo, prematura pareceria qualquer conclusão quanto à capacidade dessa mente, tão complexa e cognitivamente tão fluida, de prover a nossa espécie não só das artes de subsistência como também -e sobretudo- de uma ciência que nos proteja da extinção. "

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