Os cientistas são de fato criativos?
Para constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas, é preciso ter acesso democrático à boa educação formal
Alguns educadores e psicólogos de várias partes do mundo concluíram, independentemente, que crianças são cientistas natos porque têm a curiosidade que impele a criatividade dos cientistas. Antes de discutir por que as crianças perdem a curiosidade científica à medida que são educadas, interessa discutir por que os cientistas fazem ciência.
Desprezamos desde já a mitificação do saber especial do cientista que transcende os limites humanos da ignorância e erro.
Ao contrário, consideramos os cientistas pessoas comuns que desempenham um tipo de função que parece incomum para a maioria dos leigos. Isso acontece em parte porque, no transcurso da investigação científica, o cientista desenvolve uma linguagem particular, a qual limita a compreensão dos não-iniciados.
Esse isolamento funciona, às vezes, de modo corporativo, como escudo protetor a críticas. Ironicamente, o exercício da crítica, indispensável ao desenvolvimento do conhecimento científico, não ocorre sempre e, assim, não alcança os resultados que deveria por causa de reações emocionais contrárias de certos cientistas imaturos e inseguros da consistência dos seus argumentos. Basta uma rápida olhada na História da Ciência para verificar a formação de escolas científicas corporativas. Além disso, de Pitágoras a Einstein, a ciência tem seus folclores e fraudes. O grande astrônomo Kepler, por exemplo, datou a criação do mundo em 27/4/4977 a.C., imaginando estar corrigindo o erro do bispo James Usher, que a havia fixado em 26/10/4004 a.C. Robert Millikan, Prêmio Nobel de Física de 1923, trapaceou selecionando os melhores resultados das medidas de carga do elétron. Suas experiências eram muito delicadas e ele classificava os resultados obtidos em excelentes, passáveis e rejeitáveis. Do total de 140 resultados, ele selecionou para publicação só 58! Essa trapaça figura claramente nos cadernos de laboratório de Millikan. O grande naturalista inglês Alfred Russel Wallace passou o final de sua carreira tentando comunicar-se com os mortos!! Portanto, o cientista também carrega todas as qualidades, todos os defeitos e todas as contradições comuns aos mortais. Apesar das fraudes, o que torna a ciência um empreendimento válido não é apenas o fato de que seus resultados sempre sejam corretos, mas o fato de que eles são passíveis de discussões e de rejeições por outros colegas experientes que os criticam antes de serem publicados em revistas científicas de boa qualidade.
Isso posto, interessa-nos agora discutir porque, à semelhança de um artista, o cientista cria modelos originais e engenhosos para descrever os fenômenos naturais. Consideramos que a criatividade, em qualquer campo do conhecimento humano, tenha os fundamentos biológico e cultural. A criatividade humana pode ter uma base biológica como qualquer outra atividade racional ou emotiva. A interação de seres humanos em desenvolvimento com o meio ambiente em constante modificação resulta na exteriorização de comportamentos individuais ou sociais, que dependem de atividades bioquímicas e biofísicas celulares. Admitimos também que o padrão dessas respostas seja variável em diferentes ambientes e contextos socioculturais, significando que o ambiente também pode influenciar na exteriorização da criatividade. O escritor José Saramago, por exemplo, associa sua admirável criatividade literária com o ambiente rural onde foi criado, sob forte influência de um avô que conversava com árvores.
Associações de raciocínios científicos a paisagens, animais ou plantas podem estar presentes no processo criativo, porque interagimos muito fortemente com os demais componentes da natureza. Mesmo um químico como Kekulé, que passou a maior parte de sua vida em um laboratório, teve um sonho, no qual visualizou uma serpente que mordia sua própria cauda e, desse modo, assumia para ele a configuração química do conhecido anel hexagonal de benzeno, estrutura que o químico sugeriu ser básica em muitos compostos orgânicos.
Diz-se, muitas vezes, que não pode haver uma explicação natural para a criatividade. Alguns afirmam, por exemplo, que as composições de Mozart não têm correção e que, portanto, as melodias devem ter saído da própria mente de Deus. No entanto, gênios são trabalhadores incansáveis. O gênio típico trabalha arduamente, noite e dia, por vários anos antes de dar alguma contribuição de valor permanente. Durante seu período de formação, mergulha em sua área de atuação, absorvendo centenas de problemas e soluções. Assim, nenhum desafio é completamente novo e ele pode recorrer a um vasto repertório de padrões e estratégias.
O que é preciso para se constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas é o acesso democrático à boa educação formal. O mundo atual exige maior criatividade das pessoas. Assim, para que seja estimulada a criatividade, um bom ensino deve ter duas qualidades básicas: guiar o aluno pelo caminho da disciplina exigida pelo trabalho intelectual e mostrá-la, de forma crítica, a diversidade e os contrastes de conteúdos do saber humano. Todavia, desconfiamos que a deficiência estrutural de muitas escolas e a formação dos professores possam inibir o desenvolvimento da criatividade nas crianças. Com a palavra, educadores e psicólogos educacionais!
Acreditamos que todos os seres humanos possam ser criativos. Muito embora, recentemente, tenham sido registradas diferenças na forma do cérebro de Einsten – mera variação individual! –, os cientistas não têm cérebros especiais com maiores capacidades de criar novas e boas idéias. Ao contrário, como acontece com qualquer um, os cientistas só às vezes têm boas idéias.
Rogério é professor de Ecologia do ICB/UFMG, e Francisco é professor da Fafi-Sete Lagoas. Ambos são do Grupo de Estudos Interdisciplinares da UFMG.
Fonte
PARENTONI, Rogério; COUTINHO, Francisco Ângelo. Os cientistas são de fato criativos? Jornal da Ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 419, ago. 1999.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
obrigado por estarmos partilhando informações virtuais.