terça-feira, 22 de junho de 2010

PROJETO ABSURDO!!!!!!!!

Projeto de louco!!!!‏





Projeto aprovado na calada da noite na Assembleia permite derrubada dos 48% que restam da chamada mata seca, no Norte do estado, para beneficiar agricultura e carvoarias

- Em sessão extraordinária, e na calada da noite, 46 dos 77 parlamentares da Assembleia Legislativa de Minas Gerais se reuniram no plenário para votar, em segundo turno, o Projeto de Lei 4.057/2009, de autoria do deputado Gil Pereira (PP), que agride a cobertura vegetal do estado. O texto, que retira a mata seca da área de preservação ambiental da mata atlântica, foi aprovado por 45 deputados – apenas Fábio Avelar (PSC) foi contrário. Na prática, se a lei for sancionada pelo governador Antonio Anastasia (PSDB), permitirá que os 48% que restam da mata seca no Norte de Minas, até então protegidos pela legislação federal, sejam desmatados para a atividade agrícola e produção de carvão. O principal argumento é que a mudança abriria na região mais 250 mil postos de trabalho no campo. Mas uma pesquisa científica feita pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) aponta que apenas os latifundiários serão beneficiados.

O deputado Gil não foi encontrado nem retornou as ligações para argumentar. O projeto, que tramitou em caráter de urgência na Assembleia, a pedido do próprio deputado, foi criticado por autoridades e especialistas na área ambiental, que o consideram inconstitucional. A mata seca foi incluída na área de preservação ambiental da mata atlântica pelo Decreto Federal 6.660/2008, que regulamentou a Lei Federal 11.428/2006 (Lei da Mata Atlântica). A legislação proíbe que florestas nativas do bioma sejam desmatadas, a não ser por motivo de utilidade pública e interesse social. Ao retirar a mata seca desse estágio de preservação permanente, o PL 4.057/2009 permite o desmatamento de até 70% da área coberta pela vegetação.

Único parlamentar presente no plenário que se manifestou contrário à proposta, Fábio Avelar disse que houve um acordo entre os deputados para que o PL fosse aprovado na noite de quarta-feira. “Tenho duas preocupações quanto ao texto. A primeira é que ele pode conter uma insegurança jurídica, sendo considerado inconstitucional, por desprezar uma legislação federal. A outra é em relação ao fim da proteção da mata seca, que demora 115 anos para se regenerar”, afirmou. A votação foi em caráter simbólico, ou seja, não houve voto nominal. Só se manifestou quem teve interesse, como Avelar, que disse não à aprovação da matéria. Dessa forma, o plenário não registrou quem votou a favor.

O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Minas, Alison José Coutinho, também apontou a possibilidade de o projeto ser considerado inconstitucional. “Entendo que o estado não pode legislar quando tem regras mais permissivas do que a legislação federal, como prevê o artigo 24 da Constituição. Tirar a mata seca da área de preservação da mata atlântica nos preocupa”, disse. De acordo com ele, o Ibama vai esperar a lei ser sancionada (se o for) para analisar quais medidas poderá tomar.

O Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema), que inclui os órgãos ambientais de Minas, também informou que só vai se manifestar se o projeto for sancionado. Já o ambientalista Mário Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, não descarta a possibilidade de a entidade ajuizar uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra a proposta. “O que estão fazendo em Minas é uma insanidade para beneficiar apenas o setor siderúrgico, com a produção de carvão. Famílias inteiras continuarão se intoxicando nos fornos”, criticou. Pesquisa divulgada mês passado pela fundação aponta que Minas foi o campeão em desmatamento de mata atlântica, entre 2008 e maio de 2010, com 12,5 mil hectares dos 20,8 mil hectares suprimidos no país.

Quem também acompanha de perto o PL é o promotor Luciano Badini, coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Meio Ambiente do Ministério Público Estadual. Ele fará avaliações antes de tomar uma decisão.

Transição - O biólogo Mário Marcos do Espírito Santo, doutor em ecologia e professor da Unimontes, estuda a mata seca do Norte de Minas há mais de quatro anos. Ele explicou que a vegetação tem uma característica peculiar. “A mata atlântica é dividida em fitofisionomias, ou seja, paisagens características. No Norte de Minas, predominam as florestas semidecíduas, que perdem mais de 50% das folhas na estiagem, chamadas florestas secas. Como estão numa zona de transição, recebem influência do cerrado e da caatinga. Mas esse discurso de que a mata seca não faz parte da mata atlântica, para retirá-la desse bioma, não é válido”, afirmou o especialista.

Segundo ele, pesquisa feita pela Unimontes mostra que 52% da mata seca do Norte de Minas já foram desmatados. “Os 48% restantes são divididos em latifúndios de mais de 1 mil hectares. Então, falar que o desmatamento abrirá mais 250 mil postos de trabalho é uma falácia. Só os latifundiários sairão ganhando”, disse.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Alienista

O Alienista

Capítulo IV - Uma teoria nova

[...]

– Estou muito contente, disse ele.

– Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula.

O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:

– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua idéia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história.

Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.

– Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.

[...]

– Há melhor do que anunciar a minha idéia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.

E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.

– Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.

Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.

O Vigário Lopes a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.

– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

Sobre o lábio fino e discreto do alienista rogou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas.

A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, — com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução.

Fonte

ASSIS, Machado de. O alienista. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br . Acesso em: 30 set. 2008.

domingo, 13 de junho de 2010

MORAES, Vinícius de. A rosa de Hiroxima. [S.l.: s.n.], 1946.

Pensem nas crianças mudas telepáticas.
Pensem nas meninas cegas inexatas.
Pensem nas mulheres rotas alteradas.
Pensem nas feridas como rosas cálidas.

Mas oh não se esqueçam da rosa,
da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa, estúpida, inválida.
A rosa com cirrose.
A anti-rosa atômica.
Sem cor, sem perfume.
Sem rosa, sem nada.

Vinicius de Moraes



sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pavor e fascínio da cauda do Halley

Pavor e fascínio da cauda do Halley

[...]

Em 1695, o astrônomo inglês Edmond Halley (1656-1742), ao aplicar a lei da gravitação universal de Newton, determinou a órbita do cometa de 1682, que já vinha sendo observado há pelo menos três séculos, mas cuja periodicidade não havia ainda sido determinada, e previu o seu retorno para 1759, o que realmente aconteceu. Desde então o cometa passou a ser denominado cometa de Halley. Diversos estudiosos, analisando os relatos de historiadores e cronistas, concluíram que sua passagem vinha sendo assinalada desde a mais remota antigüidade; seu registro histórico mais remoto datava de 467 a.C. No Brasil, a mais antiga observação do cometa foi a registrada em setembro de 1608, no Maranhão, pelo padre jesuíta português Luiz Figueira (1574-1643). Existem também registros de observações no Brasil, durante a aparição de 1835, em fins de outubro e em princípio de novembro daquele ano, pelo visconde de Araruama, José Carneiro da Silva (1788-1864).

Depois da previsão de Halley, mostrando que os cometas obedeciam às leis da física e sobretudo depois da confirmação de que o cometa que hoje leva seu nome voltaria de 76 em 76 anos, aproximadamente – acreditou-se que todo o temor em relação aos cometas deveria cessar numa civilização racional e tecnologicamente desenvolvida. Em conferência no Collège de France, por ocasião da aparição do cometa de Halley em 1835, o astrônomo francês Jacques Babbinet (1794-1872) afirmou...

Duvido muito que o cometa de Halley, em seu próximo retorno, em 1910, estimule ainda a imaginação popular.

Infelizmente, o que ocorreu foi exatamente o contrário. Ao ser anunciado que a Terra atravessaria a cauda do cometa, uma onda de pânico se estabeleceu entre os povos de todo o mundo. Para agravar ainda mais o pavor, os astrônomos anunciaram a descoberta de cianogênio – gás mortífero – na cauda do cometa, alguns meses antes da passagem da Terra pela cauda, prevista para 18/19 de maio de 1910. À medida que se aproximava esta data, nos jornais de todo o mundo sucediam-se as mais alarmantes notícias provenientes dos EUA e da Europa, informando que os gases letais da cauda provocariam o extermínio de toda a população do globo terrestre, bem como a própria destruição do planeta.

Também no Brasil se temia o fim do mundo, apesar do artigo do astrônomo francês Camille Rammarion (1842-1925), que desmentia a possibilidade dessa catástrofe, ter sido publicado em jornais cariocas. O próprio Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, procurou esclarecer à população em artigos no Jornal do Commercio. Tudo em vão. No dia 18 de abril, por exemplo, a cidade parou para observar o cometa que, à luz do dia, aparecia ameaçador nos céus cariocas. Os jornalistas subiram o Morro do Castelo à procura dos astrônomos. Estes informaram que o astro visível era o planeta Vênus, próximo de seu máximo brilho. No dia seguinte, no Correio da Manhã, um jornalista concluiu: E aí está como a deliciosa Vênus embrulhou o rabudo Halley. Astúcias de mulher!

No entanto, apesar dos equívocos e subseqüentes ironias jornalísticas, a passagem do Halley pela Terra em 1910 foi a mais espetacular do século. Realmente, nosso planeta atravessou a cauda do cometa, porém sem maior efeito que uma fraca luminescência no céu. Os astrônomos brasileiros Morize (1860-1930) e Costa (1882-1956) registraram suas impressões e determinaram a posição precisa do cometa em 1910, no morro do Castelo – atual Esplanada do Castelo –, onde estava instalado o Observatório Nacional do Rio de Janeiro.

Esse cometa foi reobservado em 1986, quando uma enorme propaganda anunciou-o como o cometa do século, apesar ter sido previsto que essa aparição seria mais desfavorável do que a anterior. De fato, em 11 de abril de 1986, quando se deu sua aproximação máxima em relação ao nosso planeta, o cometa se encontrava à distância de 63 milhões de quilômetros, quase três vezes superior à distância mínima na passagem anterior – 23 milhões do quilômetros em 19 de maio de 1910.

Sabe-se que a cauda de um cometa alcança a sua maior extensão no periélio – menor distância do Sol –, quando a atividade solar, agindo sobre o envoltório gasoso do núcleo, produz um aumento do seu brilho. Assim, é depois da passagem pelo periélio que os cometas se tornam mais belos e luminosos. Mas essa situação dura pouco: à medida que o cometa se afasta do Sol, começa a perder o brilho e sua cauda vai se reduzindo. Ora, em 1910 o cometa esteve próximo da Terra cerca de um mês depois do periélio – 10 de abril de 1910; em 1986, ele só esteve próximo da Terra em abril, dois meses depois do periélio – 9 de fevereiro de 1986. Por isso a passagem de 1986 foi muito inferior, em beleza, à do início do século.

Além de sua posição e do brilho reduzido em relação à aparição de 1910, o marketing e o sensacionalismo da mídia, estimulados por alguns astrônomos, contribuíram para provocar uma grande decepção junto ao público leigo. Na realidade, a importância da passagem de 1986 estava na qualidade dos resultados que poderiam ser – e foram – obtidos com os sofisticados experimentos conduzidos pelas sondas espaciais russas, japonesas e européia. Como se esperava, elas foram incomparavelmente superiores às observações realizadas com telescópios convencionais.

O grande espetáculo de 1986 foi dado pelos jornais e canais de televisão, através da divulgação das imagens geradas por cinco sondas espaciais: duas japonesas – planeta A e MS-T5 –, duas soviéticas – Vega 1 e 2 – e uma européia – Giotto. Enquanto as sondas Vega 1 e 2 passaram em 6 e 9 de março de 1986, respectivamente, a 8.890 e 8.030km do núcleo do Halley, obtendo imagens de baixa resolução através de câmaras de televisão equipadas com teleobjetivas especiais, a Giotto passou, em 14 de março de 1986, a 605km, transmitindo imagens do núcleo e da cabeleira interna do cometa, por intermédio de uma câmara de varredura construída para a ocasião.

As imagens soviéticas revelaram que o núcleo possuía a forma irregular de uma batata com 14km de comprimento, 7,5km de espessura e 7,5km de largura. Nessas imagens, o núcleo se apresentou muito escuro, com um poder refletor da ordem de 4%, em oposição à idéia de que o núcleo fosse muito brilhante por ser constituído de gelo em sua maior parte. Na realidade, o seu solo parece revestido de uma camada de carbono que envolve o gelo subjacente. Além de muito irregular, sua superfície apresentava colinas e vales, assim como estruturas anulares de 500 metros – verdadeiras crateras por onde escapavam jatos de gases e poeiras. Presumia-se que o núcleo, ao ser aquecido pela radiação solar, liberasse rajadas de matérias que alimentavam a cabeleira. Dessas emissões, limitadas ao hemisfério iluminado pelo Sol, só nove jatos foram detectados.

Apesar disso, novos modelos do interior do núcleo devem ser elaborados. O núcleo observado pelas sondas se apresentou muito poroso, pelo menos em determinadas regiões, com uma densidade média compreendida somente entre um décimo e um quarto da densidade do gelo. No estudo das emissões do núcleo, como se previa, verificou-se que os jatos eram dominados (80%) pelo vapor d'água. Na passagem da Giotto, o cometa emitia cinco vezes mais gás do que poeira. A produção gasosa foi estimada em 20 toneladas por segundo.

Antes da passagem das sondas acreditava-se que a poeira liberada pelo núcleo era semelhante à dos meteoritos rochosos, como os condritos carbonáceos. As análises forneceram resultado muito diferente: algumas poeiras apresentam composição próxima à dos silicatos terrestres e outras são constituídas principalmente de carbono (C), hidrogênio (H), oxigênio (O) e nitrogênio (N), donde a sigla CHON empregada para designá-las. Outra surpresa foi a abundância de partículas muito pequenas, com massa de 10-17 gramas.

As sondas permitiram finalmente um estudo minucioso da interação do cometa com o vento solar: a um milhão de quilômetros do núcleo, a Giotto já começou a registrar uma nítida perturbação no vento solar provocada pelo cometa. Depois de haver atravessado a cabeleira, os fluxos de poeira se tornaram menos homogêneos do que o previsto.

A observação astronômica na superfície da Terra, apesar de toda a evolução tecnológica nesse intervalo de 76 anos, não conseguiu competir com as imagens das sondas. No início do século, poucos ousariam imaginar sondas interceptando o Halley. E, seguramente, os avanços serão muito superiores em 2061, data da próxima aparição. Talvez seja possível observar o cometa mesmo em sua posição mais afastada da Terra, nos limites do sistema solar. Em 1910 foram os telescópios. Em 1986, as sondas. Como será no Terceiro Milênio?

Fonte

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Pavor e fascínio da cauda do Halley. O Globo. Rio de Janeiro, n. 5, 20 jun. 1999. Globo 2000, p. 106.

A coragem do jovem Einstein

A coragem do jovem Einstein

As primeiras décadas do século XX foram marcadas por uma profunda revisão de nossos conceitos relativos à natureza física do mundo. Primeiro, a teoria da relatividade de Einstein reformulou a concepção de espaço e de tempo, mostrando como as definições então aceitas eram limitadas. Segundo a física newtoniana, o espaço e o tempo eram entidades absolutas, independentes do estado de movimento do observador. Einstein mostrou que existe uma inter-relação entre espaço e tempo, que são mais apropriadamente tratados como uma entidade única, o espaço-tempo quadridimensional – quatro dimensões: três para o espaço e uma para o tempo.

Essa unificação do espaço com o tempo leva a conseqüências que contrariam nosso bom senso. Por exemplo, Einstein mostrou que objetos em movimento têm suas dimensões contraídas na direção do movimento – a contração espacial – e que relógios em movimento batem mais devagar – a dilatação temporal. Nós não vemos esses efeitos, pois eles só são perceptíveis quando os movimentos ocorrem a velocidades próximas à da luz – 300 mil quilômetros por segundo. Uma das conseqüências da teoria da relatividade é que nós vivemos em uma realidade aproximada, newtoniana, que esconde toda uma outra realidade relativística, onde comprimentos e intervalos temporais são sujeitos a mudanças.

Mas a teoria da relatividade não foi a única a expandir as fronteiras de nossa realidade física. Uma outra revolução conceitual ocorreu quase que ao lado da que houve na compreensão da estrutura do espaço-tempo causada pela relatividade: a revolução em nossa compreensão da física do muito pequeno, a física quântica. Mesmo com a invenção do microscópio tendo, desde o final do século XVII, revelado um mundo diferente do nosso, povoado por células etc., este era ainda um mundo que seguia as leis newtonianas de movimento. Mas experiências no século XIX obtiveram resultados inexplicáveis pela física clássica. A explicação desses resultados experimentais forçou um realinhamento conceitual da física que pegou a maioria dos físicos de surpresa. A palavra forçou é mesmo muito adequada.

Tudo começou quando o físico alemão Max Planck sugeriu, em 1900, que átomos não recebiam nem emitiam energia continuamente, mas em pequenos pacotes, ou quanta. Essa idéia era perturbadora; até então, a energia era tratada como uma quantidade contínua. Planck tentou, durante anos, explicar sua idéia de forma clássica, isto é, mostrar que a descontinuidade da energia era conseqüência de conceitos determinísticos baseados na física newtoniana. Mas seus esforços foram em vão: a interação entre átomos e radiação era mesmo efetuada por meio de pequenos pacotes de energia e seus múltiplos, da mesma forma que transações monetárias são feitas em termos de centavos e seus múltiplos. O centavo é o quantum monetário.

As idéias de Planck inspiraram o então jovem Einstein a pensar mais profundamente sobre a natureza da radiação eletromagnética, cuja porção visível nos é familiar em forma de luz. No mesmo ano em que ele propôs a teoria da relatividade especial – 1905 –, Einstein publicou um artigo em que indica que a própria luz tem um comportamento dual, atuando ora como onda, conforme era aceito na época, ora como partícula. Como prova de sua conjectura, Einstein explicou um resultado experimental conhecido como efeito fotoelétrico, pelo qual a radiação ultravioleta pode remover elétrons de uma placa metálica eletricamente neutra, tornando-a carregada. O Prêmio Nobel que ele ganhou em 1921 não foi pela teoria da relatividade, mas pelo efeito fotoelétrico. Ambas as idéias demonstram a coragem intelectual do jovem Einstein que, aos 26 anos, lançou as sementes das duas grandes revoluções da física deste século. E essas não foram as únicas duas sementes que o jovem Einstein plantou então...

Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro A dança do Universo.

Fonte

GLEISER, Marcelo. A coragem do jovem Einstein. Folha de São Paulo, São Paulo, 11 abr. 1999. Especial para a Folha, p. 5-12.


Os cientistas são de fato criativos?

Os cientistas são de fato criativos?

Para constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas, é preciso ter acesso democrático à boa educação formal

Alguns educadores e psicólogos de várias partes do mundo concluíram, independentemente, que crianças são cientistas natos porque têm a curiosidade que impele a criatividade dos cientistas. Antes de discutir por que as crianças perdem a curiosidade científica à medida que são educadas, interessa discutir por que os cientistas fazem ciência.

Desprezamos desde já a mitificação do saber especial do cientista que transcende os limites humanos da ignorância e erro.

Ao contrário, consideramos os cientistas pessoas comuns que desempenham um tipo de função que parece incomum para a maioria dos leigos. Isso acontece em parte porque, no transcurso da investigação científica, o cientista desenvolve uma linguagem particular, a qual limita a compreensão dos não-iniciados.

Esse isolamento funciona, às vezes, de modo corporativo, como escudo protetor a críticas. Ironicamente, o exercício da crítica, indispensável ao desenvolvimento do conhecimento científico, não ocorre sempre e, assim, não alcança os resultados que deveria por causa de reações emocionais contrárias de certos cientistas imaturos e inseguros da consistência dos seus argumentos. Basta uma rápida olhada na História da Ciência para verificar a formação de escolas científicas corporativas. Além disso, de Pitágoras a Einstein, a ciência tem seus folclores e fraudes. O grande astrônomo Kepler, por exemplo, datou a criação do mundo em 27/4/4977 a.C., imaginando estar corrigindo o erro do bispo James Usher, que a havia fixado em 26/10/4004 a.C. Robert Millikan, Prêmio Nobel de Física de 1923, trapaceou selecionando os melhores resultados das medidas de carga do elétron. Suas experiências eram muito delicadas e ele classificava os resultados obtidos em excelentes, passáveis e rejeitáveis. Do total de 140 resultados, ele selecionou para publicação só 58! Essa trapaça figura claramente nos cadernos de laboratório de Millikan. O grande naturalista inglês Alfred Russel Wallace passou o final de sua carreira tentando comunicar-se com os mortos!! Portanto, o cientista também carrega todas as qualidades, todos os defeitos e todas as contradições comuns aos mortais. Apesar das fraudes, o que torna a ciência um empreendimento válido não é apenas o fato de que seus resultados sempre sejam corretos, mas o fato de que eles são passíveis de discussões e de rejeições por outros colegas experientes que os criticam antes de serem publicados em revistas científicas de boa qualidade.

Isso posto, interessa-nos agora discutir porque, à semelhança de um artista, o cientista cria modelos originais e engenhosos para descrever os fenômenos naturais. Consideramos que a criatividade, em qualquer campo do conhecimento humano, tenha os fundamentos biológico e cultural. A criatividade humana pode ter uma base biológica como qualquer outra atividade racional ou emotiva. A interação de seres humanos em desenvolvimento com o meio ambiente em constante modificação resulta na exteriorização de comportamentos individuais ou sociais, que dependem de atividades bioquímicas e biofísicas celulares. Admitimos também que o padrão dessas respostas seja variável em diferentes ambientes e contextos socioculturais, significando que o ambiente também pode influenciar na exteriorização da criatividade. O escritor José Saramago, por exemplo, associa sua admirável criatividade literária com o ambiente rural onde foi criado, sob forte influência de um avô que conversava com árvores.

Associações de raciocínios científicos a paisagens, animais ou plantas podem estar presentes no processo criativo, porque interagimos muito fortemente com os demais componentes da natureza. Mesmo um químico como Kekulé, que passou a maior parte de sua vida em um laboratório, teve um sonho, no qual visualizou uma serpente que mordia sua própria cauda e, desse modo, assumia para ele a configuração química do conhecido anel hexagonal de benzeno, estrutura que o químico sugeriu ser básica em muitos compostos orgânicos.

Diz-se, muitas vezes, que não pode haver uma explicação natural para a criatividade. Alguns afirmam, por exemplo, que as composições de Mozart não têm correção e que, portanto, as melodias devem ter saído da própria mente de Deus. No entanto, gênios são trabalhadores incansáveis. O gênio típico trabalha arduamente, noite e dia, por vários anos antes de dar alguma contribuição de valor permanente. Durante seu período de formação, mergulha em sua área de atuação, absorvendo centenas de problemas e soluções. Assim, nenhum desafio é completamente novo e ele pode recorrer a um vasto repertório de padrões e estratégias.

O que é preciso para se constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas é o acesso democrático à boa educação formal. O mundo atual exige maior criatividade das pessoas. Assim, para que seja estimulada a criatividade, um bom ensino deve ter duas qualidades básicas: guiar o aluno pelo caminho da disciplina exigida pelo trabalho intelectual e mostrá-la, de forma crítica, a diversidade e os contrastes de conteúdos do saber humano. Todavia, desconfiamos que a deficiência estrutural de muitas escolas e a formação dos professores possam inibir o desenvolvimento da criatividade nas crianças. Com a palavra, educadores e psicólogos educacionais!

Acreditamos que todos os seres humanos possam ser criativos. Muito embora, recentemente, tenham sido registradas diferenças na forma do cérebro de Einsten – mera variação individual! –, os cientistas não têm cérebros especiais com maiores capacidades de criar novas e boas idéias. Ao contrário, como acontece com qualquer um, os cientistas só às vezes têm boas idéias.

Rogério é professor de Ecologia do ICB/UFMG, e Francisco é professor da Fafi-Sete Lagoas. Ambos são do Grupo de Estudos Interdisciplinares da UFMG.

Fonte

PARENTONI, Rogério; COUTINHO, Francisco Ângelo. Os cientistas são de fato criativos? Jornal da Ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 419, ago. 1999.

Uma ciência para cidadãos

Uma ciência para cidadãos

Hiroshima, Chernobil, catástrofe da usina química Bhopal: o século XX foi marcado por eventos trágicos que semearam a dúvida sobre o papel emancipador da ciência.

Esses horrores, que se acrescentam a outras catástrofes no mundo do trabalho – minas, transportes etc. –, suscitaram um certo desencanto em relação à ciência e à tecnologia. Esse fenômeno traduziu-se em uma escalada da militância antinuclear ou ecologista no Ocidente e pela proliferação de associações em favor de uma ciência cidadã. Na Índia, por exemplo, grupos como o Kerala Shastra Sahitya Parishad esforçam-se para divulgar a informação científica, estimular o espírito crítico da população e obter que os resultados das pesquisas sejam colocados a serviço das necessidades vitais.

Para muitos, esse desencanto está ligado a outros fatores, particularmente graves nos países em desenvolvimento, que contribuem com menos de 10% das despesas mundiais em P&D. Esses países viram surgir com a globalização, no rastro das privatizações e do liberalismo econômico, uma nova concepção da ciência – agora considerada uma mercadoria. Uma vez que se aplicam os critérios do mercado para orientar e avaliar a pesquisa, a ciência é cada vez menos considerada um bem público. Certos sinais evidentes demonstram que as pesquisas mantidas a serviço desse ideal estagnaram ou retrocederam. O que não deixa de causar sérios problemas a países em desenvolvimento como a Índia, onde o Estado garante mais de 80% do financiamento de P&D.

Os pesquisadores desses países, universitários ou não, têm a responsabilidade social fundamental de preservar a ciência dos interesses comerciais, estes baseados na idéia de que o conhecimento é um bem privado. Os Estados deveriam encorajar a ciência enquanto bem público até as sociedades terem absorvido os choques engendrados pelas forças do mercado.

Certos avanços científicos e tecnológicos vão de encontro a valores éticos largamente partilhados. A revolução da informação ameaça a vida privada; a revolução biológica poderia subverter a natureza humana e questionar a unicidade do indivíduo. Há inovações científicas e tecnológicas mais temíveis que outras. Os agricultores utilizam maciçamente pesticidas e herbicidas mesmo conhecendo os perigos que estes representam a longo prazo para o ser humano. Fazem-se experiências cruéis com animais, principalmente para avaliar os perigos de certas substâncias químicas. Como observou o indiano Kamla Chowdry, especialista em meio ambiente, as tecnologias desenvolvidas pelas grandes potências para as indústrias de armas, agroalimentares e de bens de consumo são portadoras de violência e ameaçam valores como compaixão, ajuda mútua, respeito e espiritualidade.

Novos mecanismos de decisão

As questões da eqüidade e do consumo sustentado estão estreitamente ligadas aos aspectos hegemônicos e violentos da ciência e da tecnologia modernas. Não se pode falar de desenvolvimento sustentado sem se refletir sobre os modelos de consumo das sociedades contemporâneas. O problema crucial é saber se os países desenvolvidos estão dispostos a diminuir seu consumo de energia não-renovável.

Essas reflexões conduzem sempre à mesma questão: que fazer para que a ciência e a tecnologia atendam às necessidades essenciais das sociedades, sobretudo nos países de baixa e média renda? Creio ser necessário desenvolver um processo democrático a fim de definir um novo contrato social entre ciência e sociedade. Para tanto, impõem-se quatro condições. Em primeiro lugar, o poder de decisão não deveria ser monopolizado por uma elite política e científica, com freqüência ligada aos interesses do setor privado. Os representantes de numerosos grupos de interesse, como os movimentos por uma ciência cidadã, e outros grupos de defesa dos direitos sociais, deveriam participar das decisões. A democracia não poderá funcionar se não trabalhar pelo bem-estar da população e se a distribuição da renda não for mais eqüitativa. Para democratizar o acesso às mudanças tecnológicas, é preciso criar novos mecanismos de decisão e elaborar redes de segurança. Por exemplo, sobre temas como a biodiversidade e a biotecnologia, as comunidades tribais isoladas dos países do Sul deveriam ser representadas no seio das comissões oficiais. Deve-se levar em conta seu ponto de vista para rever certos programas internacionais, sobretudo os que foram propostos pela Convenção das Nações Unidas sobre a Biodiversidade e pela Cúpula do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992. Nos países em desenvolvimento, onde as orientações das pesquisas seguem, sobretudo, as exigências e necessidades das elites privilegiadas, os governos devem estimular esses modos de decisão participativos. Eles deveriam ainda aumentar os orçamentos dos projetos de pesquisa ligados à segurança, sejam públicos ou privados.

O princípio de proximidade

Segundo imperativo: conscientizar as pessoas quanto aos possíveis impactos da ciência e da tecnologia sobre a vida, a fim de combater o determinismo tecnológico. Nesse nível, os grupos de militantes que se interessam pela ciência, como os existentes na Índia, têm importante papel a cumprir. Deveriam ser mantidos por seus governos.

Terceiro ponto: nos países em desenvolvimento, dever-se-ia perguntar por que as prioridades da pesquisa universitária são fixadas em função de problemas essencialmente ocidentais. A maioria das pesquisas é certamente importante para o avanço do conhecimento científico, mas não têm interesse imediato para os países em desenvolvimento. Enquanto isso, os laboratórios científicos e as universidades do Sul pouca atenção dão aos problemas que afetam diretamente seus cidadãos, como desnutrição, pobreza, poluição e riscos industriais. O efeito de proximidade deveria levá-los a dedicar parte de seus esforços a essas questões, em colaboração com especialistas das ciências sociais. Os representantes das comunidades locais poderiam muito associar-se a esse tipo de pesquisa, no âmbito de instituições conhecidas.

Os valores científicos e democráticos estão estreitamente ligados. Para se usufruir os benefícios da democracia, é preciso que os cidadãos desenvolvam uma consciência científica – incluídos o ceticismo, a dúvida, o rigor e revisem seu conceito de interesse público.

Fonte

KRISHNA, V.V. Uma ciência para os cidadãos. Caderno Unesco, FGV: São Paulo, jul. 1999.

CONHECIMENTO CIENTÍFICO

CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Tipo de conhecimento que se contrapõe ao conhecimento empírico, pois dá ênfase às causas e leis em detrimento dos efeitos.


Teoricamente, é um saber ordenado e lógico, que possibilita a formulação de ideias, construindo um processo complexo de pesquisa, análise e síntese.


É o conhecimento racional, sistemático, exato e verificável.

CONHECIMENTO EMPÍRICO

Saber obtido de ações não planejadas, ou seja, ao acaso. É adquirido sem reflexão ou aplicação de métodos. Surge no trato direto com as coisas e os seres humanos, sendo assimilado por tradição, experiências causais, ingênuas. Portanto, pode-se dizer que é superficial, sensitivo, subjetivo, assistemático e acrítico.

Também é conhecido como conhecimento popular ou vulgar.

Poemas inconjuntos - 2

Poemas inconjuntos - 2

VERDADE, MENTIRA, certeza, incerteza...

Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.

Estou sentado num degrau alto dos joelhos cruzados.

Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas?

Qualquer cousa mudou numa parte da realidade –

Os meus joelhos já não são as minhas mãos.

Qual a ciência que tem conhecimento para isto?

O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.

Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.

Ser real é isto.

Fonte

PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio I: poemas completos de Alberto Caeiro.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 105.

Poemas inconjuntos - 1

Poemas inconjuntos - 1

O ÚNICO mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as cousas – eis o erro, a dúvida.

O que existe transcende para mim o que julgo que existe.

A Realidade é apenas real e não pensada.

Fonte

PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio I: poemas completos de Alberto Caeiro.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 116.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O valor da ciência e da divulgação

O valor da ciência e da divulgação


Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais?

O sujeito (cientista), em seu relacionamento com o mundo (atividade científica), consigo mesmo e com o absoluto, nada encontra de firme.

A existência é algo incerto e inseguro. (Kierkgaard)

O conhecimento científico tem as qualidades de imperfeição e dúvida, por isso não há consenso na comunidade científica.

Outra característica importante da atividade científica é a de que a ciência não é panacéia universal. Ocorre com freqüência o oposto: por exemplo, a aplicação dos princípios teóricos e tecnológicos para a elaboração de armas nucleares.

Assim, muitos cientistas trabalham para a indústria militar, que por cruel ironia produz emprego e riqueza em certas nações, que, por conseqüência, dispõem de mais recursos para investir na atividade científica – este não é caso do Brasil, onde se produzem 80% das minas que mutilam africanos. Seres humanos são usados como cobaias para estudar certas doenças, como ocorreu em Tuskegee, Alabama, de 1932 a 1972. Nesse estudo, foi informado a um grupo de 309 negros com sífilis e outro com 210 sem a doença, que estavam com o sangue ruim. A todos foi prometido tratamento (penicilina), mas recebiam somente água com açúcar. Em 69, morreram 28, em 72, 74, e, em 97, apenas sete sobreviveram. Além disso, a ciência e tecnologia produziram talidomida, CFC – responsável por parte da destruição da camada de ozônio, gases que atacam o sistema nervoso, poluições diversas que podem arruinar o clima do planeta e extinguir espécies animais e vegetais.

Tais imperfeições da prática científica têm justificado para alguns o aumento da propagação da crença em superstições ou explicações pseudocientíficas: se a ciência nem sempre está correta e não é uma fonte de riquezas morais, então o melhor é buscar uma ciência alternativa. Uma vez colocados em dúvida os conhecimentos científicos, abre-se o caminho para crenças sobre a vida emocional das plantas, continentes que emergem e afundam rapidamente, Terras ocas, canalização dos mortos, deuses astronautas, estupro astral, alienígenas entre nós, civilizações subterrâneas e criacionismo científico.

Um dos responsáveis pelo apego a superstições é o desconhecimento de como a atividade científica é desempenhada.

Antes, porém, algo deve ser dito sobre os que acreditam na ciência alternativa. Desde os gregos, sabemos que o desejo de conhecer o mundo é inerente à nossa natureza. Por isso, pessoas que pagam por crenças e superstições, em boas livrarias, não devem ser consideradas ignorantes. Elas desejam sinceramente compreender e sondar o mundo ao seu redor, mas, por não entenderem como o conhecimento científico é adquirido, caem no conto do vigário, crendo estar comprando livros com alguma informação sensata.

A ciência tem muitas deficiências. Porém, para investigar fenômenos naturais e fornecer soluções para problemas concretos, o procedimento científico é o melhor de que dispomos.

Além disso, os conhecimentos produzidos podem ser testados e, se necessário, corrigidos.

O máximo que o cientista pode esperar é o aperfeiçoamento de seu conhecimento pela colaboração e crítica, inerentes ao conhecimento científico. Inversamente, a pseudociência produz certezas imunes à crítica e correções. Como debater ou corrigir o que não se tem acesso?

A ciência moderna tem conseguido avançar em várias áreas. Doenças que vitimavam a humanidade têm sido curadas. A expectativa de vida na Europa Ocidental passou de 30 anos, na Idade Média, para 50, em 1915, e se aproxima dos 75 anos. Caso haja vontade política, já há meios eficientes e seguros de produzir mais alimentos nutritivos. Conhecemos muito da intimidade constitutiva da matéria e dispomos de boas hipóteses sobre a origem do Universo. O conhecimento da mais incipiente das ciências tem mais valor do que toda a história da astrologia. Prever eclipses com séculos de antecedência não é um problema difícil para a astronomia – mas em 11 de agosto de 1999 não ocorreu o fim do mundo!

Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais?

Uma das respostas é a de que o desconhecimento da capacidade explicativa limitada da ciência, abre caminho para a superstição. Quando uma pessoa adoece, ela pode tomar remédio, rezar ou ambos. Se ela reza e não toma o remédio é porque está convicta do poder curativo da reza e desconhece ou despreza um tratamento cientificamente comprovado.

Esta dificuldade em se perceber o valor da ciência resulta da linguagem hermética dos cientistas. O conhecimento científico assim fica restrito às quatro paredes das Universidades e Institutos de Pesquisas.

Apenas a democratização do conhecimento o tornará acessível e capaz de barrar o avanço da superstição e da pseudociência. Para mostrar que a divulgação científica é possível, basta citarmos Carl Sagan, Stephen Jay Gould, Edward Wilson e o brasileiro José Reis.

Um livro árido como supostamente deveria ser um sobre história da Filosofia, esteve, há pouco tempo, na lista dos mais vendidos. Atividades de extensão e aperfeiçoamento de professores do ensino básico e fundamental podem ser realizadas por cientistas sem comprometer seu tempo de dedicação à pesquisa.

Basta que mudem sua linguagem. É o mínimo que se espera numa democracia, onde as pessoas precisam se entender. Aliás, esse seria um serviço útil dos cientistas à própria compreensão da ciência que tanto prezam.

Finalmente, se quisermos o apoio da sociedade às reivindicações de mais verbas para a pesquisa, devemos divulgar para o público, ou mesmo facilitar para que um jornalista o faça, o valor social da atividade que desempenhamos.

Fonte

O VALOR da ciência e da divulgação. Jornal da ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 420, set. 1999.

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações

No que diz respeito à relação ciência e sociedade, devemos admitir...

1) onde as ciências naturais se encontram e onde elas estão liderando, qual tem sido seu impacto social e o que a sociedade espera delas;

2) que no século XXI, a ciência deve se tornar um benefício compartilhado por todas as pessoas, com base na solidariedade, que a ciência é um recurso poderoso para a compreensão dos fenômenos naturais e sociais e que o seu papel promete ser ainda maior no futuro, quando a complexidade crescente do relacionamento entre a sociedade e o ambiente for melhor compreendida;

3) a necessidade sempre crescente do conhecimento científico no momento de decisões pública e privada, incluindo notadamente o papel a ser representado pela ciência na formulação de política e decisões reguladoras;

4) que o acesso ao conhecimento científico para propósitos pacíficos, como era feito há muito tempo, é uma parte do direito à educação que todos os homens e mulheres têm, e que a ciência da educação é essencial para o desenvolvimento humano, para criar capacidade científica endógena e para criar cidadãos ativos e informados;

5) que a pesquisa científica e suas aplicações podem produzir retorno significativo em direção ao crescimento econômico, ao desenvolvimento humano sustentável, incluindo a diminuição da pobreza, e que o futuro da humanidade tornar-se-á mais dependente da produção eqüitativa e do uso do conhecimento como nunca foi antes;

6) que a pesquisa científica é a mais forte tendência em relação aos cuidados de saúde e sociais e que, ao se fazer maior uso do conhecimento científico, cria-se um grande potencial para melhorar a qualidade da saúde para a humanidade;

7) o processo atual de globalização e o papel estratégico do conhecimento científico e tecnológico dentro dele;

8) a necessidade urgente de se reduzir o vácuo existente entre o desenvolvimento e os países desenvolvidos, no intuito de se melhorarem a capacidade científica e a infra-estrutura dos países em desenvolvimento;

9) que a revolução da informação e da comunicação oferece novos e mais eficientes meios para mudar o conhecimento científico e melhorar a educação e a pesquisa;

10) a importância para a pesquisa científica e para a educação com acesso amplo e claro a informações e dados de domínio público;

11) o papel representado pelas ciências sociais na análise das transformações sociais relacionado ao desenvolvimento científico e tecnológico e à procura por soluções do problema gerado no processo;

12) as recomendações das principais conferências conveniadas aos sistemas de organizações das Nações Unidas e outras organizações e os encontros associados com a Conferência Mundial sobre a Ciência;

13) que a pesquisa científica e o uso do conhecimento científico deveriam respeitar os direitos humanos e a dignidade do ser humano em concordância com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e com a ajuda dada pela Declaração sobre o Genoma Humano e Direitos Humanos;

14) que algumas aplicações da ciência podem ser prejudiciais ao indivíduo e à sociedade, ao meio ambiente e à saúde humana, e possivelmente até ameaçar o a continuidade da existência das espécies, e que a contribuição da ciência é indispensável à causa da paz, do desenvolvimento, da segurança global e da despreocupação global;

15) que os cientistas, juntamente com outros participantes mais importantes, têm a responsabilidade especial de procurar se prevenir contra as aplicações da ciência que estão eticamente erradas ou que têm um impacto adverso;

16) que necessitam praticar e aplicar as ciências em conformidade com os requisitos éticos apropriados, desenvolvidos com base em um intenso debate público;

17) que o propósito da ciência e o uso do conhecimento devem respeitar e manter a vida com todas as suas diversidades, bem como os sistemas de manutenção da vida de nosso planeta;

18) que há uma desigualdade histórica na participação dos homens e das mulheres em todas as atividades relacionadas com a ciência;

19) que há algumas barreiras que têm obstruído a participação total de outros grupos, de ambos os sexos, incluindo pessoas inaptas, nativas e minorias étnicas que, daqui por diante, serão referidas como grupos desfavoráveis;

20) que os sistemas de conhecimentos locais e tradicionais como as expressões dinâmicas de percepção e compreensão do mundo podem dar, e historicamente têm dado, uma contribuição valiosa para a ciência e para a tecnologia, e que há uma necessidade de preservar, proteger, pesquisar e promover essa herança cultural e o conhecimento empírico;

21) que um novo relacionamento entre a ciência e a sociedade é necessário para enfrentar os problemas globais urgentes, como a pobreza, a degradação ambiental, a saúde pública inadequada, a insegurança no alimento e na água, e os associados, em particular, com o crescimento da população;

22) a necessidade de um forte comprometimento com a ciência por parte dos governos, da sociedade civil e do setor produtivo, assim como um forte comprometimento dos cientistas para com o bem-estar da sociedade.

Fonte

DECLARAÇÃO sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações. [S.l.: s.n].

O porquê e o como

O porquê e o como

Volta e meia, leitores me perguntam sobre os limites da ciência, sobre até onde nós podemos chegar, munidos que somos de um cérebro finito. Afinal, como podemos responder a todas as perguntas se mal sabemos formulá-las? E, mesmo se soubéssemos, será que existe um limite máximo do conhecimento, uma espécie de barreira além da qual a nossa razão não pode penetrar? Será que é justamente a existência dessa barreira que justifica o nosso apetite por assuntos espirituais, místicos, que transcendem os limites da razão?


Sem a menor dúvida, nos últimos 400 anos a ciência progrediu imensamente, revelando mundos absolutamente fantásticos e inesperados: com os microscópios, vislumbramos um mundo repleto de minúsculos seres vivos, de células, de estruturas minerais e cristais belíssimos. Em níveis ainda menores, descobrimos o mundo dos átomos e das partículas elementares, os tijolos fundamentais da matéria. Com os telescópios, vislumbramos mundos distantes, de estrelas e planetas a galáxias e buracos negros, alguns a bilhões de anos-luz de distância, mais velhos do que a Terra. Seria inútil tentar fazer justiça às nossas descobertas neste ensaio ou mesmo em outro muito maior. O próprio sucesso da ciência redefine os seus limites, como um horizonte que se afasta continuamente. Muitos acreditam que, devido a esse sucesso, um dia teremos todas as respostas. Eu não poderia discordar mais.


O meu avô dizia, sabiamente, que, se usarmos um chapéu maior do que a nossa cabeça, ele cobrirá os nossos olhos. Acho importante manter isso em mente quando lidamos com os limites do conhecimento humano. Vamos começar de modo bastante abstrato, falando da quantidade total de informação: supondo que o Universo seja finito, ele tem uma quantidade finita de informação. Mesmo se ele não for finito (o que é bem mais provável), nós só podemos nos comunicar com a velocidade da luz (até que se prove o contrário), e, portanto, vivemos em uma ilha de informação limitada pela idade do Universo, de 14 bilhões de anos. Como a luz viaja a uma velocidade fixa no vácuo, no máximo podemos receber informação de um evento que ocorreu há 14 bilhões de anos. O problema é que a complexidade do Universo é tamanha e os arranjos de matéria, tão variados, que seria impossível poder armazenar conhecimento sobre tudo que existe, vive e ocorre no Universo. Portanto, só podemos ter informações aproximadas sobre o cosmo, jamais perfeitas e completas.


Os cientistas sabem disso e constroem os seus modelos sobre os fenômenos naturais de forma aproximada, deixando de lado detalhes irrelevantes. Ou seja, os cientistas usam o mínimo de informação possível em sua descrição da natureza. Por exemplo, para modelar a órbita da Lua em torno da Terra não são necessários detalhes sobre a geologia dos dois corpos celestes. Bastam as suas massas e distância entre eles. Mais ainda, a ciência não se propõe a responder perguntas do tipo Por quê? Por exemplo, por que duas massas sentem uma força atrativa, que chamamos de gravidade? Não sabemos. Em 1687, o inglês Isaac Newton obteve uma fórmula descrevendo como dois corpos se atraem, com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado de sua distância. Mas ele não saberia dizer por que as duas massas se atraem. Em 1915, Albert Einstein propôs a sua teoria da gravitação, onde essa atração se deve à curvatura do espaço em torno das massas. Porém, ele também não saberia explicar por que a presença de uma massa encurva a geometria do espaço à sua volta. A ciência explica o como, não o porquê.


Voltando à questão da barreira do conhecimento, eu não acredito que ela exista. Ou, se existe, ela tem uma fronteira móvel, que vai se alargando com o tempo: ecoando o grego Sócrates, quanto mais aprendemos sobre o mundo e sobre nós mesmos, mais aprendemos o quanto não sabemos. A natureza é muito mais esperta do que nós, com as nossas explicações de como isso ou aquilo funciona. Afinal, nós também somos produtos de sua criatividade, o que necessariamente implica que seremos sempre incapazes de compreendê-la em sua totalidade. Se existe algo de fascinante aqui é a nossa capacidade de aprender tanto sobre o mundo, dadas as nossas limitações. Algumas questões, especialmente aquelas ligadas a origens, desafiam a nossa imaginação: será que algum dia iremos entender como surgiu o Universo, a vida e a mente? Acredito que sim, mas não antes de surgirem outras questões impossíveis.

Fonte

GLEISER, Marcelo. O 'porquê' e o 'como'. Folha de São Paulo, São Paulo, [200-].